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O Valor Intrínseco do Trabalho

James M. Dressler

04.09.2014

O Valor Intrínseco do Trabalho

Estava passando os olhos sobre os programas de alguns partidos que têm candidato à presidência, e me deparo com a seguinte frase: “O Estado promoverá a progressiva eliminação das diferenças que separam o trabalho manual do intelectual”. Presumi que a eliminação será da diferença na remuneração entre um e outro, senão seria transformar o trabalho manual em intelectual ou vice-versa, que seria uma idéia mais estapafúrdia ainda do que a presumida.

Antes de analisar os possíveis efeitos de tal pensamento, é bom esclarecer que considero todo trabalho digno, o que não implica que todos os trabalhos tenham o mesmo valor intrínseco, o que é muito diferente. Há trabalhos que agregam um valor maior à sociedade que outros, e isso é muito fácil de demonstrar.

Imagine um engenheiro, como eu também sou, mas que trabalhe na manutenção de computadores. Seu trabalho certamente tem um valor, que numa sociedade capitalista, é traduzida no salário que lhe é pago. Agora, imagine o engenheiro que projetou este computador. É muito provável que o salário dele seja maior, não é mesmo? Ambos são engenheiros, mas certamente o projetista ou tem uma formação mais sofisticada, ou tem mais talento (ou ambos) que o primeiro. Imagine eliminar-se esta diferença salarial, no que isso resultaria? Certamente, depois de alguns anos, teríamos uma escassez de projetistas de computadores, afinal, se um trabalho mais simples dá o mesmo retorno salarial, porque alguém iria esquentar a cabeça com algo mais complexo?

Mudemos a comparação para as diferenças entre o trabalho manual e o intelectual. Primeiro, há a falácia de que trabalhos manuais tem remunerações menores. Tudo depende de quão rara é habilidade necessária para a tarefa manual que se analisa. Um exemplo que todo mundo conhece é o jogador de futebol. Pense num engenheiro ou médico de suas relações que ganhe tanto quanto um grande goleiro ou, pior ainda, um grande centroavante do futebol brasileiro, se é que há algum! Ficou difícil, não? É que a riqueza gerada por eles, seja emocional, seja através da venda de camisetas e ingressos, é muito maior. Agora, imagine o médico infectologista que descobrisse a cura da AIDS. Não tenho dúvida que não só em termos de remuneração como de prestígio, ele seria mais valorizado em termos de renda que a maioria dos jogadores de futebol.

Então, na realidade, o que há são diferenças entre as riquezas geradas por cada trabalho, independentemente de ser intelectual ou manual. Eliminar as diferenças entre as mais variadas remunerações para cada trabalho, por decreto, é convidar os trabalhadores a escolher as profissões mais simples, já que as remunerações são as mesmas. Daí para escassearem produtos os quais ninguém tem interesse em trabalhar na sua produção, ou então que o custo deles suba astronomicamente, desorganizando a economia do país, não será preciso muito.

O mesmo efeito nefasto será obtido dando aumentos salariais acima do aumento da produtividade dos trabalhadores, sob o pretexto de aumentar a distribuição de renda. Renda não tem que ser distribuída pelo Estado, renda tem que ser gerada pela sociedade, senão só há disseminação da pobreza e jamais sua eliminação. Quando a renda é aumentada artificialmente, acontece o que aconteceu na indústria automobilística: de tanto os operários fazerem greves exigindo aumentos que estavam acima da riqueza que geravam, acabaram substituídos por robôs que trabalham mais eficazmente sem jamais reclamar.

A receita para aumentar a renda de um trabalhador é o investimento na educação: é assim que agrega mais conhecimento ao cidadão, permitindo que ele desempenhe tarefas mais sofisticadas e que tem um valor intrínseco maior. Isto acaba beneficiando inclusive os que executam tarefas de menor valor agregrado, porque a sociedade como um todo enriquece, e os serviços públicos a que todos têm acesso melhoram. O caminho é muito mais difícil de ser trilhado, mas ele gera um círculo virtuoso como nenhum outro investimento gera. É aí que o Estado pode entrar para reforçar a virtude, focando na educação com qualidade, como outros países desenvolvidos já mostraram ser o caminho. Esta mais que na hora de seguirmos tais exemplos.


Tags: James Dressler, coluna, artigo, opinião


James Masi Dressler é formado em Engenharia Elétrica pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS e pós-graduado em Ciência da Computação pela mesma universidade.

    e-mail: jamesmdr@gmail.com
    Twitter: @jamesmdr

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