Últimas notícias

Colunistas

RSS
Racismo

James M. Dressler

11.09.2014

Racismo

            Os recentes atos de racismo na Arena do Grêmio levantaram novamente com muita força o assunto mais uma vez na mídia nacional, como não poderia deixar de ser. É sempre difícil escrever alguma coisa sobre isso sem ferir suscetibilidades, mas vou tentar colocar a razão para trabalhar.

            Em primeiro lugar, acho difícil classificar alguém como racista apenas por uma ofensa. É, sem dúvida alguma, lamentável que pessoas vão a um estádio de futebol para ofender outras, mas é o que acontece. Mas vejam bem: ofender! E não tenho dúvidas que é extremamente ofensivo para um negro ser chamado de macaco. Não necessariamente isso significa que quem proferiu a ofensa discrimine ou prejudique negros na sua vida diária, o que é exatamente o que um racista faria. Se ela tivesse proferido a ofensa e também tivesse tal comportamento, aí sim ela poderia ser tachada de racista. No máximo é uma injúria racial, condenável sem dúvida, mas cuja gravidade é bem menor do que ser uma racista na acepção da palavra.

            O problema das ofensas em estádios de futebol sempre houve e dificilmente será extinto. Pensem bem no que significa a ofensa mais comum: que a mãe se prostitui e que provavelmente o ofendido tem pai incerto, é ofensa para ninguém botar defeito! E em todos os jogos há coros chamando alguém disso e ninguém dá a menor importância. Deveriam? Pois é, daí para descambar para outras ofensas que atinjam mais profundamente os sentimentos do atingido, não é difícil imaginar que mesmo alguém que não é racista acabe chamando um negro de macaco. Lamentável, sem dúvida, mas qualquer ofensa é lamentável, não acham?

            Nesta onda sobre o assunto, que não acho ruim, é mesmo de se discutir e repetir o quão errado é, e o quanto ofende os negros tais insultos. Graças a ela, acabei escutando um debate em um programa polêmico de uma rádio da capital gaúcha, onde havia um representante do Grêmio e outro ligado aos movimentos negros. E não para minha surpresa, o representante dos movimentos negros disse, na abertura do seu pronunciamento, que o Brasil é extremamente racista. Vou ter que discordar. Se fosse, não teríamos um terço da população de pardos, não é mesmo? Extremamente racista eram a África do Sul no tempo do apartheid ou um pouco menos os Estados Unidos na época em que havia aquela política do “separados, mas iguais”, onde havia escolas, ônibus, etc. apenas para negros. Isso nunca aconteceu no Brasil, então não há como dizer que nosso país é extremamente racista.

            Na mesma linha, a mesma rádio enviou um repórter negro para passar-se por um consumidor, para provar cabalmente que se a pessoa é negra, ela será mal atendida ou atendida de forma precária em relação a uma pessoa branca. Primeiro, vejam bem, o repórter é negro, o que em si é um contrassenso à tese que queria se provar. Aí, vem aquele exemplo clássico: o rapaz entrou em uma concessionária de veículos e ninguém o atendeu. Ele olhou os carros, entrou e sentou à frente do volante, e acabou indo embora sem que ninguém perguntasse o que ele queria. Bem, sou branco e isso já aconteceu comigo mais de uma vez, exatamente como o descrito pelo repórter. O que ele talvez não tenha percebido é que vendedores de carros estão sempre observando os clientes muito antes de eles entrarem na loja, principalmente nas grandes concessionárias, para antever se é apenas um curioso ou um cliente em potencial. Você chega num carro da marca ou de valor, o tratamento será um, você chega a pé ou desce do ônibus na frente da loja, o tratamento será bem outro. Foi o meu caso. Não é por causa da cor, e sim pela condição econômica do cliente, que o vendedor presume a partir do que você está vestindo e de como você chegou ali, se ele tiver tido a oportunidade de perceber. Podem levar a cor em consideração? Até podem, como poderiam achar que um oriental tivesse mais chance de comprar um carro numa concessionária de carros japoneses ou coreanos do que um caucasiano. Isso é racismo?

            Entretanto, isso não significa que no Brasil não haja brancos que não gostem de negros, assim como há negros que não gostam de brancos, e como há pessoas que não gostam de gordos, velhos, pobres, ricos, ou em resumo, não gostam do que lhe é diferente. Apesar de condenável, isso sempre vai haver, talvez seja uma condição natural do ser humano. Cabe à sociedade dar a devida educação para desfazer tais preconceitos e fobias, mas é uma luta contínua, que temo nunca acabará.

            Uma palavrinha a respeito da punição imposta ao Grêmio. Descobriu-se que um dos juízes do STJD já tinha feito manifestações tão ou mais racistas que aqueles torcedores que foram flagrados na Arena. Pergunto: faz sentido punir todo STJD por isso? Quem sabe exonerar todos os juízes, já que 20% (um de cinco) da sua bancada cometeu o mesmo crime que julgavam? Se por causa de dez (0,03%) entre trinta mil torcedores presentes, decidiram punir o clube? Clube que, por sinal, vem fazendo campanhas contra o racismo e fornecendo todo apoio à Polícia para identificar os agressores? Não acho razoável nem uma coisa nem outra. Devemos identificar as pessoas que insistem em tais práticas e responsabilizá-las individualmente pelo crime que praticaram. A instituição deve ser punida apenas no caso de seus dirigentes incitarem tais práticas, o que não é o caso, nem no Grêmio, nem no STJD.


Tags: James Dressler, coluna, artigo, opinião


James Masi Dressler é formado em Engenharia Elétrica pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS e pós-graduado em Ciência da Computação pela mesma universidade.

    e-mail: jamesmdr@gmail.com
    Twitter: @jamesmdr

DCO - Gestão da Transição




Opinião do internauta

Deixe sua opinião

Comemoramos hoje - 15.11

  • Dia de Nossa Senhora do Rocio
  • Dia do Anjo Ieiaiel
  • Dia do Esporte Amador
  • Dia do Joalheiro
  • Dia do Santo Alberto Magno
  • Dia Nacional da Umbanda
  • Proclamação da República