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Sístole e Diástole

James M. Dressler

18.09.2014

Sístole e Diástole

                Estamos em meio a mais uma batalha eleitoral no Brasil, onde o prêmio principal é a Presidência da República. Minha proposta de análise hoje é olharmos não o aspecto microscópico desta disputa, mas sim lá do alto, bem mais distante, onde não observemos os atores e sim as ideias que se alternam no poder.

                Se analisarmos o que tem acontecido nos últimos cem anos, observaremos, na maioria dos países de cultura ocidental, que há uma alternância no poder entre partidos à direita e à esquerda do centro do espectro político. Eventualmente, até um partido de centro acaba vencendo eleições, só para confirmar a regra de que o normal é a alternância de poder.

                Mas porque acaba havendo esta alternância, o que move esta troca entre uma ideologia e outra? Eu tenho as minhas teorias, e a que me parece que melhor explica o fenômeno é que há momentos em que a população percebe que a economia vai mal e que há trabalho a ser feito, que vai exigir esforço de todos, e há momentos em que há riqueza e prosperidade acumuladas suficientemente, e está na hora de gastar o que o esforço anterior gerou. No primeiro momento, há a tendência da direita vencer e no segundo, a esquerda será a escolhida, na maioria das vezes. Comparo este movimento às sístoles e diástoles do coração.

                Até certo ponto, tal alternância é saudável, os problemas começam quando, durante esta alternância, acabam se criando mecanismos que (1) tentam evitar a alternância de poder ou (2) tentam eternizar políticas de alto cunho ideológico, de forma a que, mesmo que um lado não esteja no poder, suas principais ideias continuem vigorando no mandato do outro. E há ainda aqueles que conseguem unir os dois objetivos.

                Um exemplo todos conhecemos: o bolsa-família, que é uma política eminentemente de esquerda que cativa boa parte do eleitorado, e cujo temor de ser encerrada tende a reeleger quem a criou, obrigando praticamente a todos candidatos prometerem que ela jamais terminará. Outro, menos conhecido, mas tão perigoso quanto, é o decreto 8.243 da Presidência da República, que tenta estabelecer os tais conselhos populares (na Rússia eram chamados de sovietes) como entes que podem ingerir na administração pública, sem ter um único voto sequer. Um arroubo autoritário que espero que seja derrubado.

                Vemos agora, na Europa, depois de um bom tempo de poder da esquerda antes da crise, o ressurgimento da direita para tentar reverter o quadro econômico ruim que a esquerda não teve competência para enfrentar. Crises profundas são sempre momentos em que o movimento de sístole e diástole se complica, e cá entre nós, se parece muito com um infarto. Na minha visão, nunca seria momento de usar políticas econômicas de esquerda para enfrentá-las, porque o que acontece, na maioria das vezes, é que a crise acaba passando apesar de tais políticas e não por causa delas, e a crise acaba durando mais do que deveria.

                No que consistem tais políticas? Ajudar justamente muitos dos que a causaram para “preservar empregos”, mas o que acaba sendo preservado junto é a ineficiência e má gestão que já tem embrionada a próxima crise, que virá quando o efeito da ajuda se esvanecer. Melhor seria extirpar o mal de uma vez, perder empregos agora, mas que logo adiante serão recriados em condições mais saudáveis, e que terão vida muito mais longa porque ensejarão um período de prosperidade maior.

                Não há como evitar estes ciclos econômicos, a natureza tem os seus, e até nós humanos os temos. Cabe a nós, como sociedade, nos prepararmos para os ciclos de baixa atividade. Um governo consciente, preocupado com a nação e não com a eleição, tem como uma das principais obrigações orientar a economia do país de forma a perseguir este objetivo,  ou ao menos não atrapalhar o ambiente econômico, com intervenções normalmente erradas para consertar erros cometidos pelo próprio governo anteriormente.

                Exceto em caso de extrema força maior (como um grande terremoto), um governo que mergulha seu país em uma crise econômica falhou miseravelmente nesta tarefa. Provavelmente surfou na onda da última diástole, pensando que a sístole jamais viria. Mais cedo ou mais tarde, acabamos pagando o preço de tais erros.


Tags: James Dressler, coluna, artigo, opinião


James Masi Dressler é formado em Engenharia Elétrica pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS e pós-graduado em Ciência da Computação pela mesma universidade.

    e-mail: jamesmdr@gmail.com
    Twitter: @jamesmdr

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