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Insegurança

James M. Dressler

29.01.2015

Insegurança

            Estava zapeando na TV num final de tarde, quando me deparei com um destes programas sobre o dia-a-dia da polícia e dos crimes.  Na tela surgiu um rapaz que chorava copiosamente enquanto passava as mãos por um armário com vários cabides vazios. Eram da loja dele, que havia sido assaltado pela décima primeira vez, onde todas as roupas que estavam à venda tinham sido roubadas.

            A imagem não me saiu da mente pelo resto da noite, até comentei com amigos sobre o desespero do rapaz. Nos telejornais noturnos, nova enxurrada de crimes já ocupavam o noticiário. Curioso é que, a cada nova tragédia, invariavelmente ouvimos aquele complemento ao final da descrição do ocorrido: ninguém foi preso. Não sei se vocês repararam, mas esta frase talvez seja a mais ouvida ou lida durante o dia, se você acompanhar as notícias por rádio, TV, jornal ou sites.

            Fui obrigado a voltar no tempo, trinta, quarenta anos atrás. Lembrar por exemplo, quando saíamos à noite sem a menor preocupação com segurança além de afivelar o cinto. Partíamos para festas nas sextas e sábados depois das 10h e íamos a diversos bares, estacionávamos em qualquer vaga na rua, nem alarme o carro tinha e não lembro de ter acontecido qualquer problema de assalto ou de furto de alguma coisa. Isso era lá pelo final da década de 70, início dos anos 80.

            Lembro também que foi naquela época a primeira vez que me senti vítima de um roubo. Meu pai levou a família num domingo para almoçar fora, e quando voltamos a porta da frente da casa estava destruída.  A casa tinha um muro baixo, que qualquer um pularia facilmente, e não havia nenhum cão de guarda. O ladrão tentou arrombar a porta, o que não conseguiu. Foi por muito pouco, algo deve tê-lo assustado e ele foi embora.  Depois disso meu pai colocou uma cerca de ferro de quase dois metros de altura na frente de toda casa e trocou a velha porta de madeira por uma toda de ferro. Lembro que os vizinhos acharam um escândalo, para que aquilo tudo? Era o prenúncio de uma nova era.

            Já não moro mais lá há anos, mas visito regularmente meus pais que ainda moram lá. A cerca continua lá, mas agora também há um portão de abertura por controle remoto para a entrada do carro, há um segundo portão no meio da casa, de três metros de altura, câmeras por todos os lados, alarme e um cachorro grande muito brabo, auxiliado por outros dois menores. E grades em todas as janelas, claro. Mas a principal diferença está na vizinhança. Há mais de década, todas casas já adotaram as mesmas medidas de segurança. Observando a minha vizinhança atual e o meu próprio prédio, vejo o mesmo arsenal defensivo, que já é comum em toda a cidade. E com o advento dos smartphones e tablets, chegamos à época do monitoramento remoto por aplicativos.

            Percebo que todo mundo já acha esse clima de trincheira de guerra normal, como a chuva que cai, como o sol que nasce, como a sucessão de invernos e verões. Todos estão acostumados a serem reféns dentro de suas próprias casas, dando graças a Deus de não serem vítimas da violência, de escaparem dos bandidos à solta. Já temos uma geração inteira que só conhece esta situação e a acha perfeitamente aceitável, não conheceu outro contexto.

            E a sensação que eu tenho é que as coisas pioram dia a dia, o crime se torna cada vez mais parte do nosso cotidiano, todos os dias vemos gente sendo executada para levar um celular ou o que tiver no bolso, gente morrendo porque brigou com o namorado (a) que não aceita a separação, ou porque atrapalhou alguém no trânsito, ou simplesmente porque estava no lugar errado na hora errada, como nos tiroteios nas casas noturnas dos últimos tempos. Qualquer dia, exigirão colete a prova de balas para entrar em boates, o que fará parte do “Plano de Prevenção e Proteção Contra Tiroteios” (PPCT) expedido pelos bombeiros.

            E todo mundo vai aceitando tudo, ninguém vai preso, ou porque é primário, ou porque o presídio está cheio, ou porque “não representa perigo para a sociedade” (esta é ótima), ou porque o criminoso na realidade seria uma “vítima da sociedade que não lhe deu oportunidades” (essa é melhor ainda). E os crimes se multiplicam como vírus num corpo doente, sem que haja qualquer reação exceto a de esconder-se na sua própria casa.

Há ainda uma parcela da população que lembra como era antes, mas até ela já sucumbiu a esta “nova ordem”. Como o sapo que é colocado numa panela com água fria em fogo brando, não percebe que acabará cozido até ser tarde demais.


Tags: James Dressler, coluna, artigo, opinião


James Masi Dressler é formado em Engenharia Elétrica pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS e pós-graduado em Ciência da Computação pela mesma universidade.

    e-mail: jamesmdr@gmail.com
    Twitter: @jamesmdr

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