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James M. Dressler

02.09.2015

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            Certamente você, por menos interessado que esteja em investir em alguma aplicação financeira, já ouviu falar que investir em ações não é para qualquer um: porque é preciso ter sangue frio e paciência, pois é uma aplicação que tem mais expectativa de ser bem sucedida no longo prazo, que é preciso entender alguma coisa de negócios e de economia, entre outras qualificações que não estão ao alcance do pequeno investidor. A paciência para esperar pelo longo prazo é a mais repetida delas, mas será mesmo que o longo prazo é garantia de alguma coisa?

            Quando eu era bem mais jovem e inexperiente, experimentei algum investimento em fundo de ações. Não tive sucesso e mal consegui recuperar o pouco dinheiro investido. Daquela época, tirei algumas lições: (1) o mercado de ações brasileiro é extremamente volátil, principalmente porque não se tem segurança jurídica e porque numa canetada o governo muda a viabilidade de uma empresa do dia para a noite, e isso acontece seguidamente; (2) o mercado de ações é realmente interessante para quem acompanha de perto as empresas (e tem tempo para isso), ou seja, observa o que as empresas estão fazendo e que pode até ter contatos dentro delas que antecipam novidades que auxiliam na decisão de comprar ou vender ações; (3) pode se investir em algum fundo administrado por um banco ou corretora, que faça este trabalho e tenha este conhecimento por você, mas aí você pagará por isso, e mesmo assim, nada está garantido, porque surpresas sempre podem acontecer; (4) no Brasil, pode se perder ou ganhar muito, tanto no curto, quanto médio ou longo prazo, portanto, desconfie deste paradigma do longo prazo.

            Contando com minha pequena experiência neste mercado, mais algumas décadas de acompanhamento informal dos movimentos das bolsas de valores e das economias pelo mundo, acho realmente divertido é ouvir os “conselheiros” financeiros. Há diversos espalhados pelos meios de comunicação, sempre tão simpáticos ao investimento em bolsa, porque ela “sempre” dá bons lucros no longo prazo. O interessante é que quando confrontado com fatos, como mostrar o valor do índice da Bolsa (IBOVESPA) em um ano e qual é o valor dez anos depois e constatar que o índice até diminuiu, ouvimos a resposta: “ah, mas longo prazo é mais que isso”. Você mostra então o índice de 15 anos atrás, e constata que a valorização é inferior a da poupança inclusive, a resposta será: “bem, mas houve uma crise, ou estamos numa crise, se você esperar mais 5 anos...”. Faça você mesmo algumas comparações no site: http://www.bmfbovespa.com.br/indices/ResumoEvolucaoDiaria.aspx?Indice=Ibovespa&idioma=pt-br

            Comparando 2015 com 2008 (a inflação no período foi de 52%) e depois com 2005 (inflação 2015-2005 foi de 75%), temos IBOVESPA de 49 mil pontos em agosto de 2015, 53 mil pontos em agosto de 2008, e 26 mil pontos em agosto de 2005. Observemos então que foi grande vantagem ter apostado no IBOVESPA em 2005 e resgatar o investimento em 2008, houve uma valorização de 100% para uma inflação bem inferior. Mas de 2005 para 2015, a valorização foi de 88%, para uma inflação de 75%, e se considerarmos uma aplicação alternativa em algum fundo de renda fixa, certamente atingiríamos rendimento idêntico ou até superior, sem qualquer sobressalto ou noite mal dormida porque a bolsa deu uma despencada naquele dia. Mas se você considerar uma aplicação em 2008 e for ver agora o que restou, houve uma perda de 10% nominal, e se considerar a inflação, uma perda de 40%! Se ficarmos comparando diversos anos e o resultado do IBOVESPA, encontraremos resultados diversos, bizarros até, aplicações no longo prazo desastrosas e no curto prazo altamente rentáveis, ou o contrário. Sei que o IBOVESPA é apenas um índice, e que se investe mesmo em alguma ação ou forma-se uma carteira de ações. Mas uso o índice apenas a título de comparação, já que ele representa uma espécie de média do mercado. O resultado, se utilizarmos uma ação apenas, pode também variar, imagine quem comprou uma ação na época do oba-oba do pré-sal e for ver o que restou do valor investido agora... Resumindo, olhando-se para o passado, pode se obter qualquer resultado que se queira, tanto no curto ou longo prazo, basta pegar o período que se encaixe no resultado que você quer encontrar.

            A conclusão é simples: aplicação em bolsa de valores pode realmente ser um bom negócio, se você tem informações (legais, claro) que lhe antecipam o que vai acontecer no mercado, e principalmente se você vai aplicar em bolsa de valores de um mercado maduro, confiável e sério. Como nos Estados Unidos, por exemplo. No Brasil, é preciso saber muito bem o que está se fazendo, saber em que empresas investir, acompanhar diariamente não só a bolsa, mas as empresas e seus movimentos nos negócios em que empreendem, e principalmente saber onde o governo vai interferir no mercado cometendo os desastres de sempre.. Imagine ter investido no setor elétrico dois anos atrás, antes do desastre causado pela interferência do governo na área... Enfim, você tem que quase viver em função disso: as variáveis são muitas e demandam constante análise.

            Então, se você não tem este perfil, nem tem este tempo disponível, muito cuidado. A maioria das poucas pessoas que tem algum dinheiro sobrando para algum investimento só ouve falar em bolsa quando ela está dando bons ganhos, momento que, na maioria das vezes, já é hora de estar vendendo as ações que tiver. Num país em que a renda fixa rende o que rende no Brasil, talvez ações não seja a melhor idéia.


Tags: James Dressler, coluna, artigo, opinião


James Masi Dressler é formado em Engenharia Elétrica pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS e pós-graduado em Ciência da Computação pela mesma universidade.

    e-mail: jamesmdr@gmail.com
    Twitter: @jamesmdr

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