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James M. Dressler

02.12.2015

Uber

E a grande polêmica do momento em Porto Alegre e em outras grandes cidades do Brasil é o sistema Uber de transporte individual. Os taxistas reclamam de que é concorrência desleal enquanto os representantes e motoristas do Uber dizem que só querem trabalhar. Quem tem razão?

Do ponto de vista do poder público, o problema todo do Uber com táxis se resume em duas coisas: perda de receitas e de poder da prefeitura. Não, não tem nada a ver com o suposto interesse dela com a qualidade do atendimento de clientes de transporte individual, esta é apenas a retórica para encobrir a verdade. É fácil de entender o porquê. Suponhamos que se deixe o Uber funcionar livremente. O que aconteceria se o Uber fosse simplesmente um mau serviço? As pessoas usariam uma ou duas vezes e voltariam para os táxis. Afinal, liberar o Uber não proíbe os táxis de funcionarem, eles estariam à disposição, talvez mais livres do que hoje, quando estão permanentemente ocupados, pois o seu número é subdimensionado para as necessidades da cidade. Eventualmente, depois de alguns poucos meses (se tanto), as pessoas estariam convencidas de que o Uber não presta e táxi é que é bom. Seria o fim da linha para o Uber.

Mas e se o Uber for realmente um bom serviço? As pessoas obviamente preferirão este serviço aos táxis, e com a migração dos taxistas para outras atividades (inclusive ser motorista do Uber), as taxas de renovações de licenças e de aferição de taxímetros, além dos impostos cobrados sobre táxis, iriam para o espaço em pouco tempo, gerando perda de receita para a prefeitura. E quando se perde receita no poder público o que é acontece? Muita gente que vive das receitas, desde funcionários da Prefeitura até vereadores, secretários, etc., pode começar a ter problemas... Além disso, se a burocracia fica obsoleta, os burocratas perdem sua função, seu poder. E quem sabe, se alguém que assumir o poder na prefeitura tiver algum senso de racionalização, provavelmente o próximo passo será que percam o emprego.

Por outro lado, do ponto de vista apenas dos taxistas e detentores de licenças de táxi, não aceitam o Uber porque querem manter o monopólio do serviço, a reserva de mercado que sempre detiveram. Ela permite-lhes auferir lucros sem concorrência, exceto entre eles mesmos, mas com evidente controle, no mínimo por pressão sobre o poder público, de impedir que haja a outorga de novas licenças para táxis que possam fazer seus lucros diminuírem.

É esta a batalha que se trava em torno do Uber, e por isso taxistas e poder público se unem para tentar impedir que um novo serviço, criado pela inovação e avaliado pelos usuários como muito bom, se estabeleça e crie um novo paradigma de serviço de transporte individual.

Como ingrediente adicional, lembrem-se que nenhum lugar do Brasil mais do que o Rio Grande do Sul e especialmente Porto Alegre, foi vanguarda em termos de bons serviços públicos, no tempo em que ser de vanguarda era regulamentar (ou seja, burocratizar) todos os aspectos da vida humana, no melhor estilo burocrata-socialista. Acontece que o mundo moderno caminha justamente na direção contrária desta mentalidade (ainda dominante) aqui no Rio Grande do Sul. A modernidade veio justamente para derrubar tudo isto que esta "vanguarda" construiu, e claro, isso vai doer na alma dos que passaram a vida inteiro construindo este “muro virtual” que agora será posto abaixo. Vinte e cinco anos depois do muro de Berlim. O Uber é só mais uma faceta desta transformação.

Imaginem agora o que acontecerá quando os próprios táxis e os carros do Uber já não precisarem de motoristas, daqui mais ou menos uns dez anos, já que as tecnologias para o carro sem motorista estão sendo desenvolvidas e estão cada vez melhores. Não duvide que haja depredação destes carros pelos motoristas profissionais a caminho do desemprego ou já desempregados. E quem sabe ouviremos o chefe da EPTC e vereadores se orgulhando de proibirem o táxi sem motorista, com o surrado discurso de que não conversaram com eles e que é um automóvel “imperialista” que está "tirando a comida da boca de filho de trabalhador", como já fizeram com o Uber. Estendam esta lógica para outras áreas da atividade humana e concluiremos, no final das contas, de que precisamos é impedir novos nascimentos antes que outras pessoas morram, senão “vamos tirar comida da boca dos outros”. Que absurdo!

O Uber é apenas a ponta do iceberg do que virá nos próximos anos, com a crescente automação de tarefas simples que hoje ainda são realizadas pelas pessoas. A solução é qualificar melhor esta geração que já está aí e as vindouras, coisa que infelizmente, pelo que temos visto, ficou só no discurso da “pátria educadora”. Na atual tocada, seremos literalmente atropelados pela modernidade.


Tags: James Dressler, coluna, opinião, Uber


James Masi Dressler é formado em Engenharia Elétrica pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS e pós-graduado em Ciência da Computação pela mesma universidade.

    e-mail: jamesmdr@gmail.com
    Twitter: @jamesmdr

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