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Como saber se você está no Quarto Mundo

James M. Dressler

09.12.2015

Como saber se você está no Quarto Mundo

Estar no Quarto Mundo é um exercício diário de paciência e resignação. Muita paciência e muita resignação. Mas o que caracteriza exatamente o Quarto Mundo, como reconhecer imediatamente que você deu o azar de estar vivendo nele?

Ainda no berço, um dos primeiros sinais pelo qual você percebe que está no Quarto Mundo são os frequentes tiroteios de madrugada. Se já ouviu, você nasceu no Quarto Mundo. Ainda não? Alguma vez, de repente tudo ficou escuro? Outra característica do Quarto Mundo são as constantes quedas de energia. Se já aconteceu, provável estar no Quarto Mundo. Se ainda não, se souber engatinhar, dê uma engatinhada pela casa e olhe para o computador mais próximo. Tem estabilizador de voltagem? Ah! Pode ter certeza que se ele está presente, você está no Quarto Mundo. Só no Quarto Mundo as oscilações de energia são tão grandes que exigem uma estrovenga destas para proteger seu equipamento. Quer mais provas? Se já consegue alcançar a janela, veja se tem grades. Tem? Bem-vindo ao Quarto Mundo. Não? Olhe o muro da casa. Tem grades altas, talvez até com uma cerca elétrica no topo? Sim, você está irremediavelmente no Quarto Mundo.

Se você já for mais crescido, outra maneira fácil de identificar que se está no Quarto Mundo é dar uma volta pelas redondezas e observar as calçadas. Estão cheia de buracos, com lajotas soltas, fezes de cães e gatos, lixo esparramado? Quarto Mundo, com certeza. Encontrou algum cachorro meio sujo e sem dono vagando? Só existem no Quarto Mundo. Pode também dar uma olhada para a pavimentação da rua. Mais buracos, bueiros sem tampa e com um galho dentro para avisar aos incautos do buraco? Encontrou alguma rua de alto tráfego ainda com paralelepípedos? Quarto Mundo na cabeça.

Se já tem idade para dirigir um automóvel, observe o trânsito. Deparou com um número infindável de semáforos, em sequência, sem qualquer sincronia e inclusive a menos de cinquenta metros uns dos outros? Ou encontrou um semáforo embaixo de um viaduto? Quarto Mundo, meu amigo! Trânsito caótico, motoristas incivilizados, que não dão sinal de conversão e atravessam o carro na sua frente, mesmo que estejam na mesma velocidade que você e não em velocidade de ultrapassagem? Quarto Mundo, absoluto! Se puder viajar por alguma estrada, observe-a. Mais buracos que parecem valas ou crateras? Projetos rodoviários ruins que parecem querer jogar o veículo para fora da estrada ao invés de mantê-lo dentro dela? Quarto Mundo!

Agora, se você encontrar estradas ou ruas trancadas com pneus queimando, ainda por cima com um grupo com bandeiras vermelhas, com crianças à frente impedindo o ir e vir dos demais, com a polícia garantindo não o direito de todos, mas sim o inexistente direito do grupo de caçar os direitos constitucionais da maioria, você infelizmente está no Quarto Mundo. Idem se encontrar algum ônibus queimando em alguma esquina.

Não sabe ainda? Faça umas compras no supermercado da esquina. Pegue o cupom de venda dos produtos. Se estiver indicado que o total de impostos gira em torno de 30% do valor total da compra, é coisa típica de Quarto Mundo. Mas não é suficiente. Para se certificar, observe se algum dos produtos à venda, como pilhas, por exemplo, tem sensores magnéticos para evitar furtos. Além disso, procure por alguém consumindo produtos dentro do estabelecimento antes de pagar. Sintomas de que você está no Quarto Mundo! Se pegar uma revista ou jornal na boca do caixa, e a manchete for que o governo local está quebrado, e apesar da alta carga tributária, não há dinheiro para pagar os funcionários, e que nada pode ser feito a não ser aumentá-la ainda mais, porque os funcionários não podem ser demitidos mesmo que não tenham o que fazer, é evidente que você está no Quarto Mundo.

Se ainda não viu um destes sinais, observe o noticiário à noite na TV. Se você vir um político acusado de corrupção dizendo que não tem contas secretas no exterior, ser desmentido pelos extratos de contas do banco estrangeiro em que ele nega ser correntista, e ele ainda por cima não renuncia, você está no Quarto Mundo.  Se você perder esta parte, mas pegar outra onde o principal mandatário do país dizer que nada sabia sobre a corrupção que ocorria ao lado da sala onde ele deveria trabalhar, saiba que são coisas que só ocorrem no Quarto Mundo. Se por outro lado, o supremo mandatário do país, além de fazer enormes trapalhadas na gestão do governo, ainda afundar a principal empresa estatal do país na sua incompetência gerencial (vamos ficar apenas nesta hipótese!), lamento, mas Quarto Mundo é a sua localização.

Se no mesmo lugar ainda você ainda ler nos jornais que descobriram o maior escândalo de corrupção de toda a História, e que ele foi o aperfeiçoamento de outro esquema corrupto em que os principais responsáveis foram soltos poucos anos depois de condenados, fique sabendo que são coisas que só acontecem no Quarto Mundo. Se ficar sabendo que talvez o principal condutor dos dois esquemas não foi ainda preso, mas pode ser que vire presidente, saiba que isso só é possível no Quarto Mundo. Se também ficar sabendo que neste lugar seguidamente acontecem desastres ecológicos de escala mundial, porque todos sabem que não dará em nada e todos ficarão impunes, definitivamente você está no Quarto Mundo.

Se puder ter acesso a dados das próprias agências do governo, procure o percentual de moradias no país que tem água encanada e esgoto. Menos de 50%? Quarto Mundo, na veia! Se, além disso, houver epidemias constantes de doenças esquisitas como dengue, febre chikungunya ou zika, com o governo fazendo pouco caso, dizendo que são inofensivas, e depois descobrir-se que causam más formações em bebês que ficarão por toda a vida incapazes e dependentes, é uma realidade que caracteriza o Quarto Mundo.

Se depois de você constatar que tudo isso acontece onde você mora, alguém tentar te convencer que este lugar é a sexta maior economia do planeta, que é um país rico ou é o país do futuro, você acabou de descobrir que num país do Quarto Mundo, a única coisa que é de Primeiro Mundo é a propaganda.


Tags: James Dressler, coluna, opinião


James Masi Dressler é formado em Engenharia Elétrica pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS e pós-graduado em Ciência da Computação pela mesma universidade.

    e-mail: jamesmdr@gmail.com
    Twitter: @jamesmdr

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