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Sanders

James M. Dressler

17.02.2016

Sanders

Vejo algumas pessoas surpresas com a ascensão de Bernie Sanders nas eleições primárias dos Estados Unidos, se aproximando muito de Hillary Clinton em Iowa, em um virtual empate técnico, e superando-a em New Hampshire por larga margem. A maioria acreditava que Hillary já era a candidata democrata e quem sabe favorita para ser a nova presidente do país. O que explica o sucesso de Sanders, com um discurso claramente socialista, frente à muito mais moderada Hillary? Creio em alguns fatores básicos, então vamos a eles.

O primeiro fator é que a "revolução" de Sanders começou há muito tempo, com a importação norte-americana de mentes socialistas via imigração. Basta olhar o mapa para identificar que, no mínimo desde meados do século passado, basicamente toda a América Latina ou é socialista ou tem uma mentalidade mercantilista, sistemas onde a dependência do Estado é predominante. As pessoas já nascem, nos países desta região, com a crença enraizada que tudo só toma rumo ou tem solução através da intervenção estatal. Os latino-americanos podem sair da América Latina, mas a América Latina não sai deles. Imigram para os Estados Unidos em busca de oportunidades, mas a mentalidade estatista continua impregnada em suas almas. E o voto latino tem um peso cada vez maior nas eleições norte-americanas.

Outro fator é o velho “almoço grátis” que sempre fez parte da receita socialista, neste caso, a educação superior gratuita é a grande armadilha para capturar um número cada vez maior de jovens ingênuos. Fala-se que o total da dívida atual de jovens em época de graduação ou já formados para com as instituições de nível superior chegue a US$ 1 trilhão. Parece muito, mas na realidade este valor corresponde a apenas 25 dias de PIB norte-americano. Parece-me pouco para ter muitas das melhores universidades do planeta. Vamos ver o que vai sobrar disso quando o governo intervier.

Por outro lado, existem as fraquezas humanas como um fator também preponderante. Acho que é bastante claro que a vida hoje é muito mais fácil e melhor do que era décadas (e até séculos) atrás, e se há um responsável por isso, acho inegável que seja o Capitalismo. Afinal, é o sistema que prepondera na maioria dos países mais bem sucedidos do planeta, e que conseguiu até a proeza de tirar centenas de milhões de chineses da miséria absoluta para um padrão de vida minimamente aceitável. Apesar disso, a inveja, um dos sentimentos mais nefastos do ser humano, faz a muitos não importar o quão boas suas vidas sejam, mas só defini-las como felizes ou infelizes após compará-las a dos vizinhos mais próximos. É o sentimento que origina o conceito de “desigualdade”, normalmente dissociado do esforço (que o invejoso não leva em conta) e competência (que o invejoso não quer saber) daquele que julgamos “mais favorecido” (como se o resultado de trabalho fosse algum favor e não seu resultado), em relação a nós mesmos. Como a expectativa de vida se estende para 80, 100 anos, e há ampla circulação de informação (inclusive pelas redes sociais) redundando até em certa ostentação, não é surpresa que o jovem de hoje veja como "rico" alguém que, tendo trabalhado a vida inteira, é bem sucedido lá pelos 50/60 anos. Daí para que este jovem (vamos supor 18 anos) já passe a ver como "injustiça" que "uns tem tanto e outros tão pouco", abstraindo completamente todos os fatores de mérito próprio que o outro tem e ele ainda tem que buscar, basta alguém lhe confirmar que há uma “desigualdade” e que ela precisa ser “corrigida” com a intervenção do Estado, para este alguém já ganhar um voto.

Outro fator que pode estar influenciando é que, à medida que a expectativa de vida aumenta, os pais demoram mais a deixar sua herança pós-morte. Consequentemente mais tempo os jovens terão que viver as suas próprias custas e dar duro até se estabelecerem por conta própria, mesmo que continuem morando nas casas dos pais por algum tempo. Sim, afinal a maioria dos pais não tem condição de sustentá-los, com as cada vez mais minguadas aposentadorias distribuídas por um tempo maior de aposentadoria, e a própria pressão por ter uma vida independente acaba forçando-os a terem seu próprio lar e assumirem completamente suas despesas. Qualquer um que prometa aliviar a “conta” da vida adulta oferecendo mais alguns “almoços-grátis” já passa a ser visto com a maior simpatia.

Premidos por todos estes fatores, para os jovens mais afoitos fica claro que é necessária uma nova entidade para substituir os pais e ser, de quebra, o arbitrador diante da “desigualdade”: é o “onipresente” Estado. Numa população em que cada vez mais os valores dos “pais fundadores” dos Estados Unidos da América, a liberdade, o empreendedorismo, o esforço individual, o trabalho e a crença no indivíduo acima do Estado vão se diluindo e crescem os valores opostos a eles, o socialismo encontra um campo fértil para “florescer”. Não tenho dúvidas que seja a resposta simples e errada para um problema complexo, o sucesso na vida, que só se encontra com trabalho, competência, perseverança e iniciativa individual.

Não é à toa que o voto dos jovens sempre foi um ideal socialista, afinal, além de muito mais ingênuos e com pouca experiência de vida, numa divisão da riqueza nos moldes comunistas, o jovem não tem nada a perder, justamente porque não possui nada para ser dividido, ainda não conquistou nada na vida. Ele vai é apenas receber daqueles que já trabalharam e já acumularam alguma riqueza, por menor que seja.

Sanders cresce em cima disso tudo. Vamos ver até onde irá.


Tags: James Dressler, coluna, opinião


James Masi Dressler é formado em Engenharia Elétrica pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS e pós-graduado em Ciência da Computação pela mesma universidade.

    e-mail: jamesmdr@gmail.com
    Twitter: @jamesmdr

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Opinião do internauta

  • Roberto Lang (17.02.2016 | 11.52)
    Excelente artigo. parabéns. Sanders é uma apresentação requentada do Luiz Inácio, e sua indicação para concorrer à presidência dos EUA é mais um passo que os States dão em direção do fim do império americano.
  • Resposta do Colunista:
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