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Faliu

James M. Dressler

05.02.2018

Faliu

O Ministro da Defesa do Brasil, Raul Jungmann, disse semana passada que o sistema de segurança brasileiro, proposto na Constituição de 1988, faliu. Acredito que ele tem razão, porém é apenas uma das tantas cartas do castelo de nossas instituições que está no chão, entre outras que já haviam caído e outras que ainda cairão.

A segurança do brasileiro é muito precária, mas só notamos isso porque salta aos olhos ao colocar as nossas vidas em perigo real e notório, seja pelos assaltos constantes, tiroteios ou chacinas que diariamente ficamos sabendo pela imprensa. O Rio de Janeiro, então, é o retrato deste caos. Para nós, gaúchos, um aviso do tipo “eu sou você amanhã”, o tal efeito Orloff, criado por aquela lendária propaganda de vodka. Assim como já aconteceu com a capital gaúcha sendo dominada aos poucos pelas organizações criminosas, tal como no Rio de tempos atrás, o caos completo, com elas dominando o cenário urbano e fazendo frente às forças policiais abertamente, é questão de tempo. Na capital fluminense fecham ruas e avenidas para promover assaltos e arrastões, daqui algum tempo passará a acontecer em Porto Alegre e no Rio Grande do Sul como um todo. Assaltos a bancos com reféns usados de escudos humanos já se tornaram rotina, falta o próximo passo. Não duvidem. O estado gaúcho flerta com isso ao ignorar o abismo fiscal em que se meteu nos últimos anos e que Sartori tenta reverter.

A leniência de décadas com a bandidagem, assegurada pela Constituição de 1988, é uma das causas desta crise na segurança. A ideologia que está por trás da carta também, e ela predomina até hoje, principalmente nas várias esferas legislativas. Sob o pretexto de que a Justiça só vale para pretos e pobres, ao invés de endurecermos para todos, tornamo-la mole para com todos. Todo mundo é coitado, todo mundo responde em liberdade por pior crime que tenha sido cometido, e quantas vezes você já ouviu que um crime grave aconteceu “mas ninguém foi preso”. Sobre bandidos com mais de 100 anos de condenação, temos que ouvir que é um “absurdo fulano de tal ser conduzido algemado”. Pode? Até certo ponto, a Lava Jato foi uma luz nesse túnel escuro, porém sinto que agora só quer se pegar os criminosos de colarinho branco, e aqueles que matam, estupram e assaltam continuam nas ruas nos aterrorizando sem maiores preocupações. Percebam que eles nem se preocupam mais em esconder os rostos com máscaras, tamanha a confiança de que ficarão impunes.

A crise estrutural também é notória. Estados são os únicos responsáveis pela segurança, e como sabemos, diversos deles estão em estado falimentar. Como resultado, o caos começa aos poucos a tomar conta de todo país, já temos crise na segurança do Ceará, Pará, Rio Grande do Norte. Não vai ficar só por aí. O déficit fiscal virou rotina em grande parte dos estados brasileiros, e é questão de tempo para que todos serviços públicos pelos quais são responsáveis tornem-se caóticos.

Como eu escrevi lá no início, a segurança é uma das cartas que já caiu deste castelo. A saúde já está em colapso há mais tempo, e isso já vem sendo noticiado. Agora, a última é um surto de febre amarela que ameaça atingir todo o país, já não bastasse o caos do atendimento normal em postos de saúdes e hospitais. A educação ruim, cujos efeitos deletérios só se sentirão daqui alguns anos, também já colapsou, mas parece que as pessoas não percebem porque o efeito não é imediato. A recessão dos anos anteriores tem muito a ver com a lógica econômica desastrosa dos governos petistas, mas também tem uma ponta da má qualificação dos alunos e depois profissionais que formamos, e que piorou na última década. Além disso, formarmos poucas cabeças nas áreas que mais geram potencial econômico atualmente, ligadas à farmacêutica, genética, informática, engenharia e ciências exatas em geral. Não que as outras não sejam importantes, nós é que somos deficientes na formação destas áreas, ao menos em qualidade. E sem isso, crescer economicamente fica difícil, sempre abaixo do que poderia ser. E o futuro, dados os índices educacionais baixíssimos que temos, não promete um futuro melhor.

Enquanto isso, seguimos com a reforma da Previdência empacada. Continuaremos, quase ao final do primeiro quarto do século XXI, aposentando pessoas com menos de 50 anos, com apenas 25 anos de serviço, e muitos outros com pouco mais de idade que isso. Países ricos não têm condições para tal, mas o Brasil tem! Não é à toa que faltem recursos para segurança, saúde e educação. Dinheiro, ainda mais em país pobre, com renda per capita de 1/5 de país rico, não dá em árvores.

O Brasil faliu, ou está quase lá. O próximo presidente vai ter muito trabalho. Ou nenhum.


Tags: James Dressler, coluna, artigo, opinião


James Masi Dressler é formado em Engenharia Elétrica pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS e pós-graduado em Ciência da Computação pela mesma universidade.

    e-mail: jamesmdr@gmail.com
    Twitter: @jamesmdr

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