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11.02.2015 | Opinião

A banalidade do mal

Hannah Arendt

Quem me conhece sabe muito bem que gosto de história. Na realidade sempre gostei desde os meus tempos de guri. Tive um professor no Colégio Rosário que me fascinava com seu saber e sua forma de ensinar.

Era o Professor Pontello, um grande mestre que lecionava história e geografia e marcou minha vida e de muitos outros jovens que tiveram o privilégio de conhecê-lo. Mesmo sem muitos instrumentos audiovisuais, o Pontello nos levava a cada aula em uma viagem pelo tempo e o espaço. Do Antigo Egito ao Século XX, suas palavras pareciam imagens em nossas mentes.

Talvez por esse motivo, constantemente escrevo sobre fatos históricos, o que repito mais uma vez no dia de hoje.

Há algum tempo, recomendado pelo meu amigo e colunista de nosso site David Iasnogrodski, assisti ao filme Hannah Arendt, uma produção teuto-francesa de 2012, obra biográfica sobre a filósofa política alemã. Barbara Sukowa interpreta Hanna neste filme dirigido por Margarethe von Trotta.

Esse filme pode até não ser uma grande obra, mas mostra a forte personalidade de Hanna, autora de As Origens do Totalitarismo.

O filme foca-se quase que exclusivamente sobre a série de cinco artigos para a revista The New Yorker que Hanna escreveu sobre o julgamento do criminoso de guerra nazista Adolf Eichmann.

Adolf Eichmann foi julgado em Israel, num processo que começou a 11 de Fevereiro de 1961. Ele foi acusado de 15 crimes, incluindo crimes contra a Humanidade, crimes contra o povo judeu, e de pertencer a uma organização criminosa.

O julgamento causou grande controvérsia internacional e com autorização do governo de Israel, foi transmitido ao vivo por várias emissoras de rádio de todo o mundo.

Esse tenente-coronel da SS da Alemanha Nazista foi responsabilizado pela logística de extermínio de milhões de pessoas no final da Segunda Guerra Mundial - chamada de "solução final" (Endlösung). Ele teria organizando a identificação e o transporte de pessoas para os diferentes campos de concentração e extermínio, sendo por isso conhecido frequentemente como o executor-chefe do Terceiro Reich.

As posições de Hanna nas reportagens sobre o julgamento realizado em 1961 em Jerusalém, e o escândalo e a controvérsia provocada, sobretudo quando o texto apareceu ampliado em um livro em 1963, “Eichmann em Jerusalém - Um relato sobre a banalidade do mal”, fazem eco até hoje.

Nesse livro Hanna desenvolve sua teoria sobre a “banalidade do mal”, onde ela descreve não somente o desenrolar das sessões do julgamento, mas faz uma análise do "indivíduo Eichmann".

Hanna acreditava que Adolf Eichmann não possuía um histórico ou traços antissemitas e não apresentava características de um caráter distorcido ou doentio. Ele agiu segundo o que acreditava ser o seu dever, cumprindo ordens superiores e movido pelo desejo de ascender em sua carreira profissional, na mais perfeita lógica burocrática. Cumpria ordens sem questioná-las, com o maior zelo e eficiência, sem refletir sobre o Bem ou o Mal que pudessem causar.

Hanna Arendt analisa o mal quando este atinge grupos sociais ou o próprio Estado. Para ela, o mal não é uma categoria ontológica, não é natureza, nem metafísica. É político e histórico: é produzido por homens e se manifesta apenas onde encontra espaço institucional para isso - em razão de uma escolha política. A trivialização da violência corresponde, para Arendt, ao vazio de pensamento, onde a banalidade do mal se instala.

Adolf Eichmann foi condenado em todas as acusações e recebeu a sentença de morte (a única pena de morte civil alguma vez levada a cabo em Israel) em 15 de Dezembro de 1961 e foi enforcado poucos minutos depois da meia-noite de 1º de Junho de 1962, na prisão de Ramla, perto de Tel Aviv.

A “banalidade do mal” perdura e faz escola até hoje para muitos seguidores desta lógica burocrática de que “os fins justificam os meios”.

Não é só na burocracia que mata pessoas, como foi o caso do nazismo e outros “ismos” mundo afora, que a “banalidade do mal” está presente.

Vejamos a política fisiológica e corrupta que assola nosso país.

Essa “doutrina do malfeito” é uma atualização, um upgrade da “banalidade do mal”, é a “burocracia” travestida em um “projeto de poder” que pode até não matar diretamente as pessoas, mas rouba a esperança daqueles que ainda acreditam que o mundo e o Brasil podem ser melhores.

Não vejo mais nas urnas a solução para esse problema crônico, essa chaga maldita e destruidora do futuro de nossos filhos e netos.

A solução passa por penas severas aos corruptos e corruptores. Talvez, porque não, deveríamos prende-los e jogar a chave fora (rsrsrsrs).

Também não devem ficar fora das cadeias, os governantes que escolhem mal, ou por interesses puramente políticos, os gestores públicos.

A incompetência também destrói e mata.

Existe diferença?


Tags: Hannah Arendt, nazismo, Pontello, professor, história, judeu, holocausto, banalidade do mal, Adolf Eichmann, extermínio






Opinião do internauta

  • Adroaldo F. Fabrício (11.02.2015 | 16.18)
    Arendt foi uma talentosíssima jornalista, promovida a filósofa por uma propaganda muito competente. Deve sua fama à magnífica cobertura do "julgamento" de Eichmann, evento midiático encenado para legitimar o enforcamento do carrasco nazista, após seu sequestro na Argentina. Todas as testemunhas eram também vítimas e quase todos os narradores da farsa eram judeus. Até onde sei, há um relato insuspeito, com perspectiva histórica: o livro de Paul Rassinier "Le véritable procès Eichmann ou les vainqueurs incorrigibles, Paris, 1962 (há edição em inglês, "The real Eichmann trial or the incorrigible victors",mas não tenho outras referências). Recomendo; o resto é propaganda desbragada, de fazer inveja a Herr Goebbels. Adroaldo F. Fabrício

  • Renato Dal Zot (11.02.2015 | 10.59)
    Brilhante a exposição sobre a tese de Hanna sobre a natureza do "monstro". Aqui, defende-se, sobretudo, o espírito científico ou, nas palavras de Nieztsche, o "gosto pelo real". Ora, o estudo dela foi enormemente frustrante ao nosso desejo em geral. Nosso desejo era o de identificar "monstros" por trás da barbárie nazista e puni-los, se possível. Mas seu estudo, visando a verdade, antes do que a mentira confortável, encontrou uma amarga resposta, a de que não foi uma maldade imoral, valorativa, que causou o holocausto, mas alguns fenômenos de grupo, ou de estado, independentemente da conduta individual. Imaginem, se já nos desagrada o parecer de psicopatia como causa do agir dos matadores em série, antes do que sua "imoralidade" ou sua "falta de fé", quão frustrante a conclusão técnica de que sequer a desordem mental ou antissocial está por trás do holocausto. É algo natural, esta é a marga e impalatável verdade que a ciência nos revela. O holocausto foi apenas um encadeamento de tensões e justificações que atenderam uma necessidade natural do ser humano de exercer um impulso natural de violência. Aquele impulso mal sublimado pela repressão civilizatória de que Freud fala em O Mal Estar na Civilização, o holocausto não foi algo desumano; foi humano. O humano é assim. Se ele pretende viver de forma diferente, deve privilegiar o conteúdo contraposto ao mal, isto é, valorizar gravemente as instituições e as consequências repressivas e os processos de socialização, enfim, aprimorar técnicas para que nós não sejamos tão humanos no quesito da violência instintual inata.

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