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07.08.2015 | Opinião

Hiroshima & Nagasaki

A nuvem de cogumelo sobre Hiroshima (esquerda) após a queda da Little Boy e sobre Nagasaki, após o lançamento de Fat Man.

O Conselho de Alvos (em inglês, Target Committee), de Los Alamos, nos Estados Unidos, recomendou as cidades de Kyoto, Hiroshima, Yokohama e o arsenal em Kokura como possíveis alvos das Bombas Atômicas recém criadas.

O Conselho rejeitava o uso da arma contra alvos "estritamente militares", pois queria que o ataque tivesse um grande efeito psicológico na população japonesa.

Às 8h15m da manhã de 6 de agosto de 1945, a bordo do avião "Enola Gay", o piloto Paul Tibbets lançava a bomba atômica "Little Boy" que destruiu a cidade de Hiroshima e matou instantaneamente 80 mil civis, chegando a quase 220 mil no total.

Pelo "azar histórico" e questões climáticas, pois não havia visibilidade no alvo principal que era a cidade de Kokura, três dias depois, os habitantes de Nagasaki tornaram-se os alvos de mais uma das maiores atrocidades da história.

Na manhã de 9 de Agosto de 1945, a tripulação do avião B-29 Superfortress, batizado de "Bockscar", pilotado pelo “Major Charles W. Sweeney” e carregando a bomba nuclear de nome código "Fat Man", deparou-se com o seu alvo principal, o arsenal de "Kokura".

Após três voos sobre a cidade sem visibilidade e com baixo nível de combustível, o bombardeiro dirigiu-se para o alvo secundário, a cidade de Nagasaki.

As condições de visibilidade em Nagasaki também não eram as ideais, mas às 11h02m, uma abertura de última hora nas nuvens permitiu ao artilheiro do "Bockscar" ter contato visual com o alvo.

A bomba "Fat Man", contendo um núcleo de aproximadamente 6,4 kg de plutônio-239, foi lançada sobre o vale industrial da cidade matando instantaneamente 40 mil pessoas, chegando a mais de 80 mil nos dias seguintes.

O papel dos bombardeios na rendição do Japão, assim como seus efeitos e justificativas, são até hoje submetidos a muito debate e polêmica.

Sabe-se hoje que um viés político foi ocultado da opinião pública na época. Os soviéticos já estavam a um passo de uma invasão e os aliados não queriam outra situação parecida com a da Alemanha ocupada e dividida no pós-guerra.

Mas a história está registrada e, em algum momento, outros fatos pouco lembrados vêm à tona.

O fato histórico de Hiroshima & Nagasaki, é que milhares de civis inocentes foram dizimados.

Mas existem outros fatos que talvez justifiquem esta opção norte-americana pelos bombardeios de 6 e 9 de agosto de 1945.

Se formos a fundo sobre o tema e, mesmo sem mudar minha opinião sobre estes ataques que vitimaram milhares de pessoas inocentes, a grande maioria de civis, passo a relatar algo que julgo extremamente importante no contexto que levou os Estados Unidos da América a tomar a decisão de bombardear o Japão com bombas atômicas.

A queda do Império japonês já começava a se desenhar no final de julho de 1945, quando implacáveis bombardeios castigaram suas cinco principais cidades - Tóquio, Osaka, Nagoya, Kobe e Yokohama -, arrasando-as em proporções de 45% a 60% de sua área. Os principais alvos industriais foram destruídos, um a um. As cidades secundárias também não foram esquecidas pelos norte-americanos, que mantiveram 60 delas sob um programa incendiário especial. A maioria foi consumida pelo fogo, em números que giram em torno dos 70% de destruição. Toyama, com seus 127.860 habitantes, teve nada menos do que 99,5% de sua área consumida pelas chamas.

Entretanto, a propaganda japonesa continuava pregando a invencibilidade nipônica. Pelo raciocínio oficial, para vencer a batalha, os EUA deveriam matar os 100 milhões de habitantes do Japão. Entregar-se, jamais.

No final do mês de julho de 1945 Tóquio recebera uma proposta de rendição incondicional, porém com a promessa de repatriamento das tropas japonesas, a permanência das indústrias e uma participação nipônica no comércio mundial; além disso, o acordo compreenderia a instalação de uma monarquia constitucional sob a atual dinastia. Tal condescendência, que não se verificou no acordo com a Alemanha, tinha uma contrapartida alarmante, no caso da proposta não ser aceita: "A alternativa para o Japão é a imediata e total destruição", diziam os termos aliados.


Korechika Anami, General do Exército Imperial Japonês e Ministro da Guerra

Ainda que considerada atraente por alguns integrantes do governo japonês, a proposta acabou sendo rejeitada pelos radicais: em 29 de julho, transmite-se a resposta oficial dos japoneses: o Império decidira "ignorar" o ultimato. A declaração do estandarte da intransigência, o General Anami, explica a escolha. "Capitulação sem condições é para o Japão um termo não somente inaceitável, mas também inconcebível. Os Estados Unidos não estão preparados para pagar o aterrador preço de sangue que lhes custaria uma invasão. Eles ainda amolecerão e concordarão com condições mais favoráveis se continuarmos contrários às resoluções do desespero."

Um desprezo, quase uma provocação. Em outras palavras: o Japão pagava para ver.

Pagou e se deu mal.

Acredito interessante e importante que analisemos alguns fatos de nossa história que podem nos esclarecer o que realmente ocorria na primeira metade do Século XX.

Em 15 de agosto de 1945, os japoneses ouvem pela primeira vez em suas vidas a voz de seu imperador, que exorta seu exército e seu povo a pôr fim às hostilidades na Segunda Guerra Mundial. Isso permite aos norte-americanos desembarcar nas ilhas japonesas sem encontrar resistência.

Em 28 de agosto de 1945, começou formalmente a ocupação do Japão pelo Comandante Supremo das Forças Aliadas, o General Douglas MacArthur.

A cerimônia oficial de rendição aconteceu no dia 2 de setembro de 1945, quando oficiais do Japão representando o Imperador assinaram a ata de rendição do Japão ao general americano Richard Kerens Sutherland, a bordo do USS Missouri.

De derrotado na Segunda Guerra Mundial à segunda economia do mundo, o Japão deu um salto gigantesco no pós-guerra.

Mas a verdade verdadeira é que o Japão é odiado até hoje por diversos países da região, merecendo um lastimável capítulo na história mundial intitulado “Crimes de Guerra do Japão Imperial”.


Hsuchow, China, 1938. Uma vala comum cheia de corpos de civis chineses, assassinados por soldados japoneses.


Prisioneiros chineses sendo enterrados vivos.


Cabeças decapitadas de vítimas do Massacre de Nanking.


Soldados japoneses atiram em prisioneiros Sikh com os olhos vendados.
A fotografia foi encontrada entre registros japonesas quando as tropas britânicas entraram Singapura.


Um prisioneiro de guerra australiano, o sargento Leonard Siffleet, capturado na Nova Guiné, prestes a ser decapitado por um oficial japonês


Prisioneiros de guerra australianos e holandeses em Tarsau na Tailândia, 1943

O historiador Chalmers Johnson assim escreveu:

“Pode não ter sentido tentar estabelecer qual dos dois agressores do Eixo na Segunda Guerra Mundial, Alemanha ou Japão, foi o mais brutal para as pessoas que vitimou. Os alemães mataram seis milhões de judeus e 20 milhões de russos [isto é, de cidadãos soviéticos]; os japoneses assassinaram algo como 30 milhões de filipinos, malaios, vietnamitas, cambojanos, indonésios e birmaneses e pelo menos 23 milhões de chineses étnicos. Ambas as nações saquearam os países conquistados, numa escala monumental, embora os japoneses tenham pilhado mais, por um período mais longo, do que os nazistas. Ambos escravizaram milhões e os exploraram como trabalhadores forçados — e, no caso dos japoneses, como prostitutas [forçadas] para tropas nas linhas de frente. Se você era um prisioneiro de guerra dos nazistas de origem britânica, norte-americana, australiana, neozelandesa ou canadense (mas não russa) tinha 4% de chance de morrer antes do fim da guerra; [comparativamente,] o índice de mortalidade dos prisioneiros de guerra aliados mantidos pelos japoneses era de quase 30%.”

R. J. Rummel, professor de ciência política na Universidade do Havaí, declara que entre 1937 e 1945, os militares japoneses assassinaram de três milhões a mais de dez milhões de pessoas, sendo o número mais provável em torno de seis milhões de chineses, indonésios, coreanos, filipinos e indochineses, entre outros, incluindo prisioneiros de guerra ocidentais.

De acordo com Rummel, apenas na China, no período 1937-45, aproximadamente 3,9 milhões de chineses foram assassinados, principalmente civis, como resultado direto das operações japonesas e 10,2 milhões em todo curso da guerra.

Sei muito bem que esses fatos históricos que relato são chocantes e, muitos deles, desconhecidos pela grande maioria das pessoas na atualidade.

Não estou defendo o que os norte-americanos fizeram em Hiroshima e Nagasaki, nem poderia fazê-lo, sendo eu um pacifista convicto.

Mas a verdade histórica demonstra que de “santos” os japoneses daquela época estavam bem distantes. O Japão Imperial, a fé cega em um imperador considerado infalível e até um Deus, associado a um militarismo expansionista exacerbado e que considerava os demais povos asiáticos como inferiores, formaram um caldo de ódio contra o Japão.

Certa vez perguntei a um amigo australiano sobre a guerra, o Japão e as bombas atômicas.

Ele me respondeu curto e grosso: “se tivéssemos a bomba atômica, o Japão não existiria mais”.

Palavras fortes mas muito parecidas a de amigos chineses, coreanos e filipinos que tive o privilégio de conhecer em minhas andanças pela Ásia.

A “tática da vitimização”, muito bem conhecida por nós brasileiros, pode servir a alguns propósitos políticos imediatos, mas não dura para todo o sempre. Um dia a cortina cai e a verdade vem à tona.

Para minha tristeza descobri o que revelo aqui nesse texto há pouco tempo, muito pouco mesmo. Dois amigos, o Carlos Mello e o Roberto Henry Ebelt, contestaram minhas opiniões antiamericanas sobre as Bombas Atômicas e me deram o rumo da pesquisa.

Pesquisei, achei e me horrorizei com o que descobri.

Mas como disse certa vez o ex-presidente norte-americano Abraham Lincoln:

“Pode-se enganar a todos por algum tempo; Pode-se enganar alguns por todo o tempo; Mas não se pode enganar a todos todo o tempo...”

Mas o pior, o inimaginável pela maioria dos ocidentais, onde me incluo, ainda viria à tona.

O incidente mais infame durante este período foi o Massacre de Nanquim de 1937-38, quando, de acordo com as descobertas do Tribunal Militar Internacional para o Extremo Oriente, o Exército Imperial Japonês massacrou cerca de 200 mil civis e prisioneiros de guerra, embora existam estimativas ainda maiores, na casa das centenas de milhares.

 


Dois oficiais japoneses, Toshiaki Mukai e Tsuyoshi Noda numa competição para determinar quem conseguiria matar cem pessoas primeiro com uma espada.
A manchete diz: “Recorde Incrível” - Mukai 106 X 105 Noda.
Publicado no Tokyo Nichi Nichi, em 13 de dezembro de 1937.

Crime semelhante foi o Massacre de Changjiao, um massacre de civis chineses pelo Exército Expedicionário Chinês (o qual, apesar do nome, era japonês) em Changjiao, Hunan. Shunroku Hata comandava as tropas japonesas. Durante quatro dias, de 9 de maio de 1943 a 12 de maio de 1943, mais de 30.000 civis foram assassinados e milhares de mulheres foram estupradas.


Monumento em Changjiao lembrando as atrocidades japonesas

No Sudeste Asiático, o Massacre de Manila, resultou nas mortes de 100.000 civis nas Filipinas, e no Massacre Sook Ching, entre 25 mil e 50 mil chineses étnicos de Singapura, foram conduzidos para as praias e massacrados.


O centro de Manila após a ação das tropas japonesas


Ação das tropas japonesas contra civis em Sook Ching

O historiador Mitsuyoshi Himeta afirma que o "Sanko Sakusen" (Política dos Três Tudos), uma estratégia de “terra arrasada” usada pelas forças japonesas na China entre 1942-45 e sancionada pessoalmente pelo imperador Hirohito, foi sozinha responsável pelas mortes de "mais de 2,7 milhões" de civis chineses.

E por aí seguem outras tantas atrocidades cometidas com autorização expressa do imperador Hirohito.

Outro capítulo à parte nesta história é a infame Unidade 731, uma unidade secreta de pesquisa e desenvolvimento da guerra biológica do exército imperial japonês que utilizou seres humanos em experiências secretas durante a Segunda Guerra Mundial e Segunda Guerra Sino-Japonesa (1937-1945).

A Unidade 731 ficava localizada no distrito de Pingfang, na cidade de Harbin, no estado fantoche de Manchukuo (nordeste da China). Foi responsável por alguns dos crimes de guerra na China e outros países da Ásia, numa das maiores atrocidades realizadas pelo exército imperial japonês.


Shiro Ishii
, médico e comandante da unidade 731, o Josef Mengele japonês.


Experiência de hipotermia, usando como cobaias prisioneiros chineses sob vigilância de soldados japoneses.


Complexo da Unidade 731.


Placa em memória das vítimas num dos prédios do complexo.

O filme de 1988, produção conjunta de Hong Kong/China, “Hei tai yang 731” (Men Behind the Sun, pt. Campo 731: Bactérias, a maldade Humana) retrata as experiências da Unidade 731. Imagens chocantes revelando atrocidades barbaras.

Da mesma maneira que não consigo aceitar os bombardeios atômicos no Japão, não consigo aceitar os crimes perpetrados pelo Exército Imperial Japonês e pela Marinha Imperial Japonesa, cometidas com o aval e em nome do Imperador Hirohito.

Sendo assim, concluímos que ao condenarmos os norte-americanos pela morte de “apenas” pouco mais de 400 mil pessoas nos bombardeios à Hiroshima e Nagasaki, estamos sendo “injustos” com a “competência” dos soldados japoneses que eliminaram milhões de civis inocentes durante o conflito.

Estive naquela região algumas vezes e percebi que até hoje existe um forte “rancor”, se pode-se dizer assim, contra os japoneses.

A história é implacável.

A história registra as marcas da destruição perpetradas pelos homens, e estas verdades não podem ser apagadas, nem mesmo pelos mais ferrenhos opositores aos norte-americanos.

Relembrar destes fatos ocorridos na primeira metade do Século XX, mostram que o homem ainda não aprendeu a conviver em paz neste pequeno planeta azul chamado Terra.

Os bombardeios a Hiroshima & Nagasaki ocorridos em 6 e 9 de agosto de 1945, onde milhares de civis inocentes foram dizimados, não podem ser analisados isoladamente.

Aceitar a inocência e vitimização do “Japão de Hirohito” é o mesmo que negar o Holocausto Judeu perpetrado pelos nazistas.

Atos bárbaros que em nada se justificam.

Isso não é minha opinião, isso é história.


Tags: Hiroshima, Nagasaki I, bomba atômica, Segunda Guerra Mundial, Japão






Opinião do internauta

  • Adroaldo Furtado Fabrício (07.08.2015 | 16.21)
    De novo? Qual o sentido de contrapor as atrocidades de um lado às do outro? Seu texto, mais uma vez, deixa implícita, mas claríssima, a conclusão: "Eles mereceram!" Ninguém merece. E não há guerras santas, limpas ou bonitas. A contabilidade macabra de quantos milhões morreram aqui, ou ali, e como, é um exercício inútil de alimentação do ódio, ou tentativa vã de justificar o injustificável. A História? Ora, a História... Ela é escrita a seu gosto pelos vencedores. Quantos são os filmes (de propaganda escrachada, disfarçada ou subliminar) sobre atrocidades nazistas? E quantos sobre Hiroshima e Nagasaki, o incêndio de Dresden, o massacre de Ketyn? Aliás, alguém ainda sabe o significado verdadeiro do substantivo comum "holocausto"? Sugiro consulta a um dicionário antigo; o Aulete, por exemplo. Ou, se quiserem em inglês, pode ser um Oxford em edição antiga.

    Réplica:Adroaldo. Devemos aceitar passivamente a vitimização japonesa? Todos os anos é a mesma coisa, mas quase ninguém lembra o outro lado da moeda. Devemos esquecer tudo? Creio que não. A melhor maneira para que atrocidades não se repitam é a sua lembrança, mesmo que triste. Lembrar é o melhor remédio.

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