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12.02.2016 | Opinião

A banalidade do mal

Hannah Arendt

Aqueles que me conhecem sabem muito bem que gosto de história. Na realidade sempre gostei desde os meus tempos de guri, quando fui inspirado e motivado pelas longas conversas e ensinamento que tive ao lado de meu avô materno, José Guido Orlandini. Era ao lado dele que escutava a “antiga” Rádio Guaíba que tinha vários programas informativos e sobre história. Também ao lado dele, acompanhava vários documentários sobre fatos da história que faziam parte da programação das emissoras de televisão da época (anos 60/70).

Não posso esquecer também que tive um professor no Colégio Rosário que me fascinava e também me inspirava com seu saber e sua forma de ensinar.

Era o Professor Pontello, um grande mestre que lecionava história e geografia e marcou minha vida e de muitos outros jovens que tiveram o privilégio de conhecê-lo. Mesmo sem muitos instrumentos audiovisuais, o Pontello nos levava a cada aula em uma viagem pelo tempo e o espaço. Do Antigo Egito ao Século XX, suas palavras pareciam imagens em nossas mentes.

Talvez por esses motivos, constantemente escrevo sobre fatos históricos, o que repito mais uma vez no dia de hoje.

Há algum tempo, recomendado pelo meu amigo e colunista de nosso site David Iasnogrodski, assisti ao filme Hannah Arendt, uma produção teuto-francesa de 2012, obra biográfica sobre a filósofa política alemã. Barbara Sukowa interpreta Hanna neste filme dirigido por Margarethe von Trotta.

Esse filme pode até não ser uma grande obra, mas mostra a forte personalidade de Hanna, autora de As Origens do Totalitarismo.

O filme foca-se quase que exclusivamente sobre a série de cinco artigos para a revista The New Yorker que Hanna escreveu sobre o julgamento do criminoso de guerra nazista Adolf Eichmann.

Adolf Eichmann foi julgado em Israel, num processo que começou a 11 de Fevereiro de 1961. Ele foi acusado de 15 crimes, incluindo crimes contra a Humanidade, crimes contra o povo judeu, e de pertencer a uma organização criminosa.

O julgamento causou grande controvérsia internacional e com autorização do governo de Israel, foi transmitido ao vivo por várias emissoras de rádio de todo o mundo.

Esse tenente-coronel da SS da Alemanha Nazista foi responsabilizado pela logística de extermínio de milhões de pessoas no final da Segunda Guerra Mundial - chamada de "solução final" (Endlösung). Ele teria organizando a identificação e o transporte de pessoas para os diferentes campos de concentração e extermínio, sendo por isso conhecido frequentemente como o executor-chefe do Terceiro Reich.

As posições de Hanna nas reportagens sobre o julgamento realizado em 1961 em Jerusalém, e o escândalo e a controvérsia provocada, sobretudo quando o texto apareceu ampliado em um livro em 1963, “Eichmann em Jerusalém - Um relato sobre a banalidade do mal”, fazem eco até hoje.

Nesse livro Hanna desenvolve sua teoria sobre a “banalidade do mal”, onde ela descreve não somente o desenrolar das sessões do julgamento, mas faz uma análise do "indivíduo Eichmann".

Hanna acreditava que Adolf Eichmann não possuía um histórico ou traços antissemitas e não apresentava características de um caráter distorcido ou doentio. Ele agiu segundo o que acreditava ser o seu dever, cumprindo ordens superiores e movido pelo desejo de ascender em sua carreira profissional, na mais perfeita lógica burocrática. Cumpria ordens sem questioná-las, com o maior zelo e eficiência, sem refletir sobre o Bem ou o Mal que pudessem causar.

Hanna Arendt analisa o mal quando este atinge grupos sociais ou o próprio Estado. Para ela, o mal não é uma categoria ontológica, não é natureza, nem metafísica. É político e histórico: é produzido por homens e se manifesta apenas onde encontra espaço institucional para isso - em razão de uma escolha política. A trivialização da violência corresponde, para Arendt, ao vazio de pensamento, onde a banalidade do mal se instala.

Adolf Eichmann foi condenado em todas as acusações e recebeu a sentença de morte (a única pena de morte civil alguma vez levada a cabo em Israel) em 15 de Dezembro de 1961 e foi enforcado poucos minutos depois da meia-noite de 1º de Junho de 1962, na prisão de Ramla, perto de Tel Aviv.

No primeiro mundo a memória não é curta como ocorre aqui no nosso "peís".

O julgamento de Reinhold Hanning, um ex-guarda do campo de concentração de Auschwitz, começou nesta quinta-feira (11/02) em Detmold, no nordeste da Alemanha.

Hanning, um aposentado de 94 anos, é acusado de ser cúmplice do assassinato de 170 mil pessoas entre janeiro de 1943 e junho de 1944, período em que trabalhou como membro da SS, tropa de elite dos nazistas.

Como falei, a memória do primeiro mundo é diferente da nossa, onde crimes cometido há décadas ainda são levados à sério.

Aqui no PATROPI somos levados ao esquecimento, à vitimização ou na “desconstrução” dos fatos e da história, com o objetivo de livrar criminosos e corruptos do cumprimento de penas severas. Tudo faz parte de instrumentos de dominação política que, lamentavelmente, grande parte da sociedade brasileira ainda se sujeita.

Mas vamos em frente...

A “banalidade do mal” perdura e faz escola até hoje para muitos seguidores desta lógica burocrática de que “os fins justificam os meios”.

Não é só na burocracia que mata pessoas, como foi o caso do nazismo e outros “ismos” mundo afora, que a “banalidade do mal” está presente.

Vejamos a política fisiológica e corrupta que assola nosso país.

Essa “doutrina do malfeito” é uma atualização, um upgrade da “banalidade do mal”, é a “burocracia” travestida em um “projeto de poder” que pode até não matar diretamente as pessoas, mas rouba a esperança daqueles que ainda acreditam que o mundo e o Brasil podem ser melhores.

Infelizmente, não vejo mais nas urnas a solução para esse problema crônico, essa chaga maldita e destruidora do futuro de nossos filhos e netos.

A solução passa por penas severas aos corruptos e corruptores.

Também devem responder criminalmente os governantes que escolhem mal, ou por interesses puramente políticos, os gestores públicos. É um toma-lá-dá-cá sem fim baseado em puro fisiologismo associado a conchavos políticos nogentos.

A incompetência, como a corrupção, também destrói e mata.

Existe diferença?


Tags: Hannah Arendt, nazismo, Pontello, professor, história, judeu, holocausto, banalidade do mal, Adolf Eichmann, extermínio






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