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06.01.2017 | Opinião

Vale Tudo

A atriz Beatriz Segall como o personagem Odete Roitman na novela da Rede Globo, Vale Tudo.

O Brasil, como qualquer outro país, possui algumas peculiaridades, entre elas, a sua quase inexplicável paixão por telenovelas.

É claro que, como a maioria dos homens de nosso país, nego “peremptoriamente” que assisto telenovelas (rsrsrsrsrs).

Brincadeiras à parte, este fenômeno sociológico das “soap operas” brasileiras, conquistou não só o nosso país, como se tornou produto de exportação para diversos países do globo.

Diferentemente dos dramalhões mexicanos, a telenovela brasileira ganhou muito em qualidade, tanto na dramaturgia, com atores de renome nacional e internacional, como nos temas abordados, geralmente atuais e com forte cunho social.

Exemplo da qualidade de nossa teledramaturgia é a conquista por quatro telenovelas brasileiras do Emmy na categoria de melhor telenovela. Em 2009 foi com Caminho das Índias. Em 2012 O Astro levou o prêmio. Em 2012 foi a vez de Lado a Lado, e em 2014 levamos o prêmio com Joia Rara, em 2015 a telenovela Império foi a vencedora e em 21 de novembro de 2016, a trama Verdades Secretas foi a vencedora. O International Emmy Awards, ou simplesmente Emmy, é o equivalente ao Oscar da televisão internacional.

Mas falar de telenovelas nos leva a sua grande influência nos hábitos e costumes de nossa população.

Várias marcaram época e ficaram gravadas na história da televisão brasileira, lançando ao estrelato diversos atores e atrizes que passaram a visitar diariamente nossas casas pela “telinha” da TV.

Entre as clássicas, me lembro de “O Direito de Nascer”, “As Pupilas do Senhor Reitor”, “Sangue do Meu Sangue”, “O Tempo não Apaga” e “Redenção”, esta última produzida pela extinta TV Excelsior e exibida de 16 de maio de 1966 a 2 de maio de 1968, sendo até hoje a telenovela que passou mais tempo no ar no Brasil, com 596 capítulos.

Redenção nos deixou o legado de “Dona Marocas”, personagem interpretado pela atriz mineira Maria Aparecida Báxter, que se tornou sinônimo de mulheres fofoqueiras.

Já na nova geração, encabeçada pela Rede Globo, temos títulos como “Roque Santeiro”, “Selva de Pedra”, “Irmãos Coragem”, “O Bem Amado”, “Dancin Days”, “Pai Herói”, “Roda de Fogo”, “Avenida Brasil”, “Amor à Vida” e tantas outras que mantiveram a atenção do público durante meses.

Para não me alongar, vejamos dois interessantes momentos em duas novelas de grande sucesso em nosso país: “Vale Tudo” e “O Astro”.

O Astro”, produzida e exibida pela Rede Globo entre 6 de dezembro de 1977 e 8 de julho de 1978, às 20 horas, foi escrita por Janete Clair e dirigida por Daniel Filho e Gonzaga Blota, tendo contado com 185 capítulos. Daniel Filho acumulou a direção geral. Em 2011 tivemos um “remake” da trama que foi a primeira "novela das onze" a ser exibida pela emissora. Este remake teve seu primeiro capítulo exibido em 12 de julho de 2011, encerrando-se em 28 de outubro de 2011, com 64 capítulos.

A trama prende o espectador que queria saber afinal, quem matou Salomão Hayalla?

Já “Vale Tudo”, também produzida pela Rede Globo, foi exibida de 16 de maio de 1988 a 6 de janeiro de 1989, no horário das 20h30 da emissora. Foi escrita por Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Bassères, com direção de Dennis Carvalho e Ricardo Waddington, e direção geral de Dennis Carvalho. Contou com 203 capítulos.

As telenovelas fazem parte da nossa cultura, queiram ou não queiram. Agora que não temos mais a censura, certos autores conseguem tocar fundo em temas que passariam “batidos”, não fosse a força da televisão.

Corrupção, corrupção e mais corrupção, drogas, doenças terminais, crime organizado, homossexualismo, racismo, pedofilia, alcoolismo, e vários outros temas polêmicos hoje são tratados abertamente. Além de lançarem os tradicionais "modismos", as telenovelas brasileiras viraram eco de clamores da sociedade brasileira.

Mas afinal, quem matou Odete Roitman?

Esse foi o grande mistério de Vale tudo, só revelado no último capítulo, quando o Ibope registrou que 86% dos televisores ligados no país estavam sintonizados na telenovela da Globo. A principal vilã da trama, Odete de Almeida Roitman, foi interpretada magnificamente pela atriz Beatriz Segall.

Para manter o mistério, a cena que revelaria o autor do crime só foi gravada no dia da exibição, de modo que nem mesmo o elenco tivesse conhecimento de tal segredo, pois os próprios atores não tiveram acesso ao verdadeiro final, que foi gravado em cinco versões diferentes.

No último capítulo da trama, que foi ao ar no dia 6 de janeiro de 1989, o Brasil inteiro descobriu finalmente quem matou Odete Roitman.

Odete foi morta por engano, por Leila (Cássia Kiss), que pensa estar atirando em Maria de Fátima (Glória Pires), a qual havia se tornado amante de seu marido, Marco Aurélio (Reginaldo Faria), ex-genro de Odete.

Hoje, passados 27 anos, o povo brasileiro continua cada vez mais apaixonado por telenovelas, mesmo que muitos neguem essa paixão.

O mais importante é que a Rede Globo, que por muitos anos manteve sozinha a hegemonia no setor, acabou por incentivar seus concorrentes a criar núcleos de produção que começam a mostrar que existe vida inteligente fora da teledramaturgia global.

Record, SBT e Band, volta e meia estão envoltas em escaramuças com a Globo, por pontos no Ibope, o que demonstra que a concorrência é sempre salutar.

Bem, acho que já escrevi demais e também já está começando mais um capítulo daquela telenovela que “não assisto” (OPS, me entreguei!!!).

Vale lembrar que sem a censura, telenovelas como Vale Tudo, começavam a nos mostrar a verdadeira cara do Brasil, um Brasil que ainda hoje nos enoja cada vez mais.

É sujeira pra todo lado...

A música tema de abertura de Vale Tudo  diz:

Brasil
Mostra tua cara
Quero ver quem paga
Pra gente ficar assim
Brasil
Qual é o teu negócio?
O nome do teu sócio?
Confia em mim

 

Parece que nada mudou até hoje...

Vale a pena conferir a maravilhosa voz de Gal Costa interpretando “Brasil”, tema de abertura de Vale Tudo de autoria de Cazuza, George Israel e Nilo Roméro.

Brasil
(Cazuza/George Israel/Nilo Roméro)

Não me convidaram
Pra essa festa pobre
Que os homens armaram pra me convencer
A pagar sem ver
Toda essa droga
Que já vem malhada antes de eu nascer

Não me ofereceram
Nem um cigarro
Fiquei na porta estacionando os carros
Não me elegeram
Chefe de nada
O meu cartão de crédito é uma navalha

Brasil
Mostra tua cara
Quero ver quem paga
Pra gente ficar assim
Brasil
Qual é o teu negócio?
O nome do teu sócio?
Confia em mim

Não me convidaram
Pra essa festa pobre
Que os homens armaram pra me convencer
A pagar sem ver
Toda essa droga
Que já vem malhada antes de eu nascer

Não me sortearam
A garota do Fantástico
Não me subornaram
Será que é o meu fim?
Ver TV a cores
Na taba de um índio
Programada pra só dizer "sim, sim"

Brasil
Mostra a tua cara
Quero ver quem paga
Pra gente ficar assim
Brasil
Qual é o teu negócio?
O nome do teu sócio?
Confia em mim

Grande pátria desimportante
Em nenhum instante
Eu vou te trair
(Não vou te trair)


Tags: Novela, Rede Globo, Vale Tudo, Odete Roitman, Beatriz Segall, corrupção, petralhas






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