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29.03.2017 | Opinião

A marcha para o golpe

Capa da 'Folha da Tarde' com a renúncia de Jânio Quadros a 25 de agosto de 1961.

Em 3 de outubro de 1960. Jânio da Silva Quadros era eleito presidente da república pela coligação PTN-PDC-UDN-PR-PL, num mandato que iria de 1961 a 1966, onde obteve 5,6 milhões de votos - a maior votação até então ocorrida no Brasil.

Jânio venceu o marechal Henrique Lott de forma arrasadora, por mais de dois milhões de votos. Porém não conseguiu eleger o candidato a vice-presidente de sua chapa, Milton Campos (naquela época votava-se separadamente para presidente e vice). Quem se elegeu para vice-presidente foi João Goulart, do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB).

O governo de Jânio Quadros foi meteórico, durou apenas sete meses entre 31 de janeiro e 25 de agosto de 1961.


Jânio Quadros.

Carlos Lacerda, governador do então estado da Guanabara, conhecido como “o derrubador de presidentes”, ao perceber que Jânio fugia ao controle das lideranças da UDN, mais uma vez se colocou como porta-voz da campanha contra um presidente legitimamente eleito pelo povo, da mesma forma que agiu contra Getúlio Vargas e tentado, sem sucesso, com relação a Juscelino Kubitschek.


Carlos Lacerda.

Em um discurso no dia 24 de agosto de 1961, transmitido em cadeia nacional de rádio e televisão, Lacerda denunciou uma suposta trama palaciana de Jânio e acusou seu ministro da Justiça, Oscar Pedroso Horta, de tê-lo convidado a participar de um golpe de estado.

Na tarde de 25 de agosto de 1961, Jânio Quadros, para espanto de toda a nação, anunciou sua renúncia, que foi prontamente aceita pelo Congresso Nacional. Especula-se que talvez Jânio não esperasse que sua carta-renúncia fosse efetivamente entregue ao Congresso. Pelo menos não a carta original, assinada, com valor de documento.

João Goulart, seu vice-presidente, estava em visita à China. A partir de então o Brasil viveu momentos de instabilidade política e institucional nunca vistas desde os episódios que levaram ao suicídio de Vargas em 1954.

Os militares, sob influência direta dos Estados Unidos que temiam ver no Brasil um governo de linha popular-esquerdista - como em Cuba – tentaram impedir que Jango assumisse o cargo como mandava a lei.

Leonel de Moura Brizola, então governador do Rio Grande do Sul, iniciou um movimento de resistência, pregando a legalidade, ou seja, a posse de João Goulart. Tal movimento ficou conhecido como Campanha da Legalidade.

Após muitos momentos de forte tensão, que quase levaram o país a uma guerra civil, em 5 de setembro João Goulart retorna ao Brasil tomando posse em 7 de setembro de 1961.

Mas o clima político permanecia quente em nosso país, mesmo após a posse de Jango.

No dia 28 de março de 1964, na cidade de Juiz de Fora, os generais Olímpio Mourão Filho e Odílio Denys se reuniram com o então governador de Minas Gerais e banqueiro, Magalhães Pinto, com a finalidade de estabelecer uma data em que se daria o estopim para o conjunto de eventos que culminaram em um “golpe de Estado”, que por muito tempo foi chamado pelos golpistas de “Revolução de 1964”.

O interessante é que os conspiradores de Juiz de Fora não definiram a data de 31 de março para o início das operações militares. O combinado pelos golpistas era que a data para o início das operações militares seria dia 4 ou quem sabe até 8 de abril de 1964.

Mas como a história conta, às três horas da madrugada de 31 de março de 1964, intempestivamente, o general Olímpio Mourão Filho resolveu partir com suas tropas em direção ao Rio de Janeiro. Segundo relatos da época, este ato foi considerado impulsivo pelo marechal e futuro presidente Humberto de Alencar Castello Branco.

Castello Branco, ao saber da partida do General Mourão, chegou a telefonar para Magalhães Pinto com o intuito de segurar o levante, mas o governador de Minas argumentou que uma vez iniciado o levante, seria um erro parar, pois alertaria as forças legalistas podendo agravar a situação.

Para muitos na época, Magalhães Pinto teria sido um herói, por ser o principal articulador civil do golpe contra João Goulart.

Na revista “O Cruzeiro” em edição extra de 10 de abril de 1964, consta que o “ARTICULADOR e iniciador do movimento que culminou com o afastamento do presidente João Goulart, o governador Magalhães Pinto, foi aclamado em Minas Gerais como o grande herói da insurreição vitoriosa e calorosamente festejada em todo o Estado”.

Ainda na noite de 1º de abril de 1964, às 20 horas, através de cadeia de rádio e televisão, o governador Magalhães Pinto, no Palácio da Liberdade, fez sua primeira proclamação como “chefe da revolução” que abalou o Brasil.

Estava formada, como chamaram na época, a “Cadeia da Liberdade”, bem diferente da “Rede da Legalidade” ocorrida anos antes e protagonizada por Leonel de Moura Brizola.

Nos dias que se sucederam ao “golpe”, nenhuma ou quase nenhuma resistência. Muito antes pelo contrário. Com exceção do jornal carioca Última Hora, todos os grandes jornais do país apoiaram o golpe militar.

Quando consumada a queda de Jango, somente o movimento estudantil, alguns poucos sindicatos, pequenos setores da ala esquerdista das forças armadas e os partidos comunistas na clandestinidade, rebelaram-se contra o golpe. O restante da nação aplaudiu e agradeceu aos militares por salvá-los do “perigo vermelho”.

Vale lembrar que diversas manifestações apoiavam o hoje tão detratado “golpe”, que por muitos anos foi comemorado entusiasticamente no dia 31 de março, como sendo a “Revolução de 64”, a “Redentora”.


O General-presidente Castello Branco ladeado pelos generais e futuros presidentes Costa e Silva (dir.) e Ernesto Geisel (esq.).

Não podemos esquecer da participação da CIA e o forte apoio do Governo dos Estados Unidos, à época comandado pelo presidente Lyndon Baines Johnson. Estes documentos estão disponíveis em http://www.gwu.edu/~nsarchiv/NSAEBB/NSAEBB118/index.htm.

Muitos dos que hoje se dizem democratas, fazem questão de esquecer o passado quando estavam ao lado dos militares enquanto isso lhes era interessante.

Mas também existem aqueles que no passado estavam na oposição e hoje se alinham com práticas antidemocráticas, as mesmas práticas que tanto repudiavam no passado.

Será que a memória é tão curta assim?


Tags: golpe, revolução, Jango, Brizola, João Goulart, Jânio Quadros, Golpe militar, Golpe de 64






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