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15.12.2017 | Opinião

A banalidade do mal

Adolf Eichmann no seu julgamento em 1961.

Todos que me conhecem sabem muito bem que gosto de história. Na realidade sempre gostei desde os meus tempos de guri, quando fui inspirado e motivado pelas longas conversas e ensinamento que tive ao lado de meu avô materno, José Guido Orlandini. Era ao lado dele que escutava a “antiga” Rádio Guaíba que tinha vários programas informativos e sobre história. Também ao lado dele, acompanhava vários documentários sobre fatos da história que faziam parte da programação das emissoras de televisão da época (anos 60/70).

Não posso esquecer também que tive um professor no Colégio Rosário que me fascinava e também me inspirava com seu saber e sua forma de ensinar.

Era o Professor Pontello, um grande mestre que lecionava história e geografia e marcou minha vida e de muitos outros jovens que tiveram o privilégio de conhecê-lo. Mesmo sem muitos instrumentos audiovisuais, o Pontello nos levava a cada aula em uma viagem pelo tempo e o espaço. Do Antigo Egito ao Século XX, suas palavras pareciam imagens em nossas mentes.

Talvez por esses motivos, constantemente escrevo sobre fatos históricos, o que repito mais uma vez no dia de hoje.

Há algum tempo, recomendado pelo meu amigo e colunista de nosso site David Iasnogrodski, assisti ao filme Hannah Arendt, uma produção teuto-francesa de 2012, obra biográfica sobre a filósofa política alemã. Barbara Sukowa interpreta Hanna neste filme dirigido por Margarethe von Trotta.

Esse filme pode até não ser uma grande obra, mas mostra a forte personalidade de Hanna, autora de As Origens do Totalitarismo.

O filme foca-se quase que exclusivamente sobre a série de cinco artigos para a revista The New Yorker que Hanna escreveu sobre o julgamento do criminoso de guerra nazista Adolf Eichmann.

Adolf Eichmann foi julgado em Israel, num processo que começou a 11 de fevereiro de 1961. Ele foi acusado de 15 crimes, incluindo crimes contra a Humanidade, crimes contra o povo judeu, e de pertencer a uma organização criminosa.

O julgamento causou grande controvérsia internacional e com autorização do governo de Israel, foi transmitido ao vivo por várias emissoras de rádio de todo o mundo.

Esse tenente-coronel da SS da Alemanha Nazista foi responsabilizado pela logística de extermínio de milhões de pessoas no final da Segunda Guerra Mundial - chamada de "solução final" (Endlösung). Ele teria organizando a identificação e o transporte de pessoas para os diferentes campos de concentração e extermínio, sendo por isso conhecido frequentemente como o executor-chefe do Terceiro Reich.

As posições de Hanna nas reportagens sobre o julgamento realizado em 1961 em Jerusalém, e o escândalo e a controvérsia provocada, sobretudo quando o texto apareceu ampliado em um livro em 1963, “Eichmann em Jerusalém - Um relato sobre a banalidade do mal”, fazem eco até hoje.

Nesse livro Hanna desenvolve sua teoria sobre a “banalidade do mal”, onde ela descreve não somente o desenrolar das sessões do julgamento, mas faz uma análise do "indivíduo Eichmann".

Hanna acreditava que Adolf Eichmann não possuía um histórico ou traços antissemitas e não apresentava características de um caráter distorcido ou doentio. Ele agiu segundo o que acreditava ser o seu dever, cumprindo ordens superiores e movido pelo desejo de ascender em sua carreira profissional, na mais perfeita lógica burocrática. Cumpria ordens sem questioná-las, com o maior zelo e eficiência, sem refletir sobre o Bem ou o Mal que pudessem causar.

Hanna Arendt analisa o mal quando este atinge grupos sociais ou o próprio Estado. Para ela, o mal não é uma categoria ontológica, não é natureza, nem metafísica. É político e histórico: é produzido por homens e se manifesta apenas onde encontra espaço institucional para isso - em razão de uma escolha política. A trivialização da violência corresponde, para Arendt, ao vazio de pensamento, onde a banalidade do mal se instala.

Adolf Eichmann foi condenado em todas as acusações e recebeu a sentença de morte (a única pena de morte civil alguma vez levada a cabo em Israel) em 15 de dezembro de 1961 e foi enforcado poucos minutos depois da meia-noite de 1º de junho de 1962, na prisão de Ramla, perto de Tel Aviv.

No primeiro mundo a memória não é curta como ocorre aqui no nosso "peís", onde tentam reescrever a história, transformando bandidos em heróis.

Aqui no PATROPI somos levados ao esquecimento, à vitimização ou na “desconstrução” dos fatos e da história, com o objetivo de livrar criminosos e corruptos do cumprimento de penas severas. Tudo faz parte de instrumentos de dominação política que, lamentavelmente, grande parte da sociedade brasileira ainda se sujeita.

Mas vamos em frente...

A “banalidade do mal” perdura e faz escola até hoje para muitos seguidores desta lógica burocrática de que “os fins justificam os meios”.

Não é só na burocracia que mata pessoas, como foi o caso do nazismo e outros “ismos” mundo afora, que a “banalidade do mal” está presente.

Vejamos a política fisiológica e corrupta que continua a assolar nosso país.

Essa “doutrina do malfeito” é uma atualização, um upgrade da “banalidade do mal”, é a “burocracia” travestida em um “projeto de poder” que pode até não matar diretamente as pessoas, mas rouba a esperança daqueles que ainda acreditam que o mundo e o Brasil podem ser melhores.

Infelizmente, não vejo mais nas urnas a solução para esse problema crônico, essa chaga maldita e destruidora do futuro de nossos filhos e netos.

A solução passa por penas severas aos corruptos e corruptores.

Também devem responder criminalmente os governantes que indicam os gestores públicos, por interesses não muito republicanos. O Estado brasileiro está tomado por uma ORCRIM (Organização Criminosa) pluri-partidária. É um toma-lá-dá-cá sem fim, baseado em puro fisiologismo associado a conchavos políticos nogentos.

A incompetência, como a corrupção, também destrói e mata.

Existe diferença?


Tags: Hannah Arendt, nazismo, Pontello, professor, história, judeu, holocausto, banalidade do mal, Adolf Eichmann, extermínio






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