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14 de Fevereiro de 1400.

Morre o Rei Ricardo II da Inglaterra

Retrato anônimo de Ricardo II do século XVI.

Ricardo II (6 de janeiro de 1367 – c. 14 de fevereiro de 1400) foi o Rei da Inglaterra de 21 de junho de 1377 até ser deposto em 30 de setembro de 1399. Filho de Eduardo, o Príncipe Negro e Joana de Kent, nasceu durante o reinado de seu avô Eduardo III. Se tornou o segundo na linha de sucessão aos quatro anos após a morte de seu irmão mais velho. Ricardo virou o herdeiro aparente do avô quando seu pai morreu em 1376. Eduardo III morreu no ano seguinte e Ricardo ascendeu ao trono com apenas dez anos.

Seu governo ficou nas mãos de uma série de conselhos durante os primeiros anos de reinado. A comunidade política preferia esse modelo ao invés de uma regência liderada por seu tio João de Gante, que mesmo assim permaneceu influente. O primeiro grande desafio do reinado foi a Revolta Camponesa de 1381. O jovem Ricardo teve um grande papel na supressão da crise. Entretanto, nos anos seguintes a dependência do rei em um pequeno número de cortesãos levou a um descontentamento na comunidade política, com o controle governamental sendo tomado em 1387 por um grupo de nobres conhecidos como Lordes Apelantes. Ricardo reconquistou o controle por volta de 1389 e governou com relativa harmonia pelos oito anos seguintes.

Ele se vingou dos apelantes em 1397, com muitos sendo executados ou exilados. Os dois anos seguintes foram descritos por historiadores como a "tirania" de Ricardo. Em 1399, depois da morte de João de Gante, o rei deserdou o primo Henrique de Bolingbroke, que anteriormente havia sido exilado. Henrique invadiu a Inglaterra em junho com uma pequena força que rapidamente cresceu. Afirmando que seu objetivo era apenas reconquistar seu patrimônio, ficou logo claro que ele planejava reivindicar o trono para si mesmo. Encontrando pouca resistência, Henrique depôs Ricardo e se corou como Henrique IV. Ricardo morreu em cativeiro no ano seguinte, acredita-se de fome, apesar de seu destino final ainda ser debatido.


Ricardo II, Rei da Inglaterra e França
Lorde da Irlanda e Príncipe de Chester

Ricardo foi descrito como alto, bonito e inteligente. Mesmo provavelmente não sendo insano, como historiadores antigos costumavam acreditar, Ricardo pode ter sofrido de um transtorno de personalidade por volta do final de seu reinado. Um guerreiro menos habilidoso que seu pai e avô, ele tentou encerrar a Guerra dos Cem Anos iniciada por Eduardo III. Acreditava firmemente na prerrogativa real, algo que o fez restringir o poder de sua nobreza, e dependia de um séquito particular para sua proteção. Ricardo também cultivava uma atmosfera polida que o colocava como uma figura elevada, com as artes e a cultura no centro, ao invés da corte fraternal e marcial de Eduardo III.

Sua reputação posterior foi muito moldada por William Shakespeare, cuja peça Ricardo II mostra sua má administração e deposição como responsáveis pela Guerra das Rosas. Historiadores atuais não aceitam tal interpretação, apesar de não exonerarem Ricardo da responsabilidade de sua própria deposição. Muitos concordam que, mesmo com suas políticas não sendo sem precedentes ou inteiramente irrealistas, o modo como foram executadas era inaceitável para o sistema político, levando à sua queda.

Início da vida

Ricardo era o filho mais novo de Eduardo de Woodstock, o Príncipe Negro, e Joana de Kent. Eduardo era filho do rei Eduardo III e o herdeiro aparente do trono inglês, tendo se destacado como comandante militar durante o início da Guerra dos Cem Anos, particularmente em 1356 na Batalha de Poitiers. Entretanto, depois de outras aventuras militares ele acabou pegando disenteria na Espanha em 1370. Ele voltou para a Inglaterra, porém nunca se recuperou totalmente. Joana de Kent foi o centro de uma disputa matrimonial entre Tomás Holland, 1.º Conde de Kent, e Guilherme de Montagu, 2.º Conde de Salisbury, da qual Holland foi vitorioso. Ele morreu em 1360 e menos de um ano depois ela casou-se com o príncipe Eduardo. Já que era neta do rei Eduardo I e prima de Eduardo III, o casamento precisava da aprovação papal.

Ricardo nasceu em 6 de janeiro de 1367 no Palácio do Arcebispo, Bordéus, Ducado da Aquitânia. De acordo com fontes contemporâneas, três reis estavam presentes – "o Rei de Castela, o Rei de Navarra e o Rei de Portugal". Essa anedota, e o fato de seu nascimento ter ocorrido no feriado da Epifania do Senhor, foram posteriormente usadas no Díptico de Wilton, onde Ricardo é um de três reis prestando homenagem à Virgem com o Menino Jesus. Seu irmão mais velho Eduardo de Angoulême morreu em 1371, com Ricardo assim tornando-se herdeiro do pai. O Príncipe Negro finalmente sucumbiu a sua longa doença em 1376. A Câmara dos Comuns temeu que João de Gante, 1.º Duque de Lencastre e tio de Ricardo, usurpasse o trono. Por essa razão, Ricardo rapidamente foi investido como Príncipe de Gales e com os outros títulos de seu pai.


Manuscrito mostrando Eduardo, o Príncipe Negro, ajoelhando-se perante seu pai Eduardo III.

Eduardo III morreu em 8 de junho de 1376 e Ricardo ascendeu ao trono com apenas dez anos, sendo coroado rei em 16 de julho de 1377. Temores sobre a ambição de João de Gante novamente influenciaram as decisões políticas e uma regência liderada pelos tios do jovem rei foi evitada. Ao invés disso, Ricardo exerceria o poder nominalmente com o auxílio de uma série de "conselhos contínuos" dos quais João foi excluído. Ele e seu irmão Tomás de Woodstock, 1.º Conde de Buckingham, ainda assim exerceram grande influência informal nos assuntos de governo. Contudo, os conselheiros e amigos do rei, particularmente sir Simão de Burley e Roberto de Vere, 9.º Conde de Oxford, cada vez mais ganharam o controle dos assuntos reais e adquiriram a desconfiança dos comuns a ponto de serem excluídos em 1380. Contribuindo para o descontentamento estava um fardo cada vez mais pesado de tributação cobrada através de três impostos individuais cobrados entre 1377 e 1381 e que foram gastos em expedições militares mal sucedidas no continente. Por volta de 1381, havia um profundo ressentimento nas classes mais baixas da sociedade inglesa contra as classes governantes.

Deposição e morte

Luís I, Duque d'Orleães, conseguiu em junho de 1399 o controle da corte do insano rei Carlos VI da França. A política de "reaproximação" com dos ingleses não estava de acordo com as ambições políticas do duque, assim sendo ele achou oportuno deixar Henrique de Bolingbroke voltar para a Inglaterra. Bolingbroke desembarcou em Ravenspurn, Yorkshire, ao final de junho com um pequeno grupo de seguidores. Homens de todo o país logo reuniram-se ao redor dele. Ao se encontrar com Henrique Percy, 1.º Conde de Northumberland, que tinha suas próprias dúvidas sobre o rei, Bolingbroke insistiu que seu único objetivo era reconquistar seu próprio patrimônio. Percy tomou a palavra dele e não quis intervir. Ricardo havia levado consigo para a Irlanda a maioria de seus cavaleiros e os membros leais da nobreza, assim Bolingbroke encontrou pouco resistência enquanto dirigia-se ao sul. Edmundo de Langley, 1.º Duque de Iorque, que estava agindo como guardião do reino, teve poucas opções além de aliar-se ao sobrinho. Enquanto isso, Ricardo se atrasou em seu retorno da Irlanda e não desembarcou em Gales até 24 de julho. Ele foi até o Castelo de Conwy, onde encontrou-se com Henrique Percy em 12 de agosto para negociações. Ricardo se entregou a Percy em 19 de agosto no Castelo de Flint, prometendo abdicar se sua vida fosse poupada. Os dois homens voltaram para Londres, com o rei indignado cavalgando por último. Ao chegar em 1 de setembro, ele foi preso na Torre de Londres.


Ricardo sendo preso por Henrique Percy, c. 1475.

Bolingbroke estava completamente determinado a tomar o trono, porém foi um dilema apresentar um motivo razoável para tal ação. Afirmou-se que através de sua tirania e má administração, Ricardo tornou-se indigno de ser rei. Entretanto, Bolingbroke não era o próximo na linha de sucessão; o herdeiro presuntivo era Edmundo Mortimer, 5.º Conde de March, que descendia de Leonel de Antuérpia, Duque de Clarence e segundo filho de Eduardo III. João de Gante, pai de Bolingbroke, era o terceiro filho de Eduardo. O problema foi resolvido ao enfatizar sua descendência em uma linhagem masculina direta, enquanto Mortimer descendia através de sua avó. O relato oficial dos eventos afirma que Ricardo voluntariamente concordou no dia 29 de setembro de 1399 em abdicar a favor de Bolingbroke. Apesar provavelmente isso não ter sido o caso, o parlamento que se reuniu no dia seguinte aceitou a abdicação. Bolingbroke foi coroado rei como Henrique IV no dia 13 de outubro de 1399.

O destino exato de Ricardo após sua deposição não é claro; ele permaneceu na Torre até ser levado ao Castelo de Pontefract pouco antes do fim do ano. Apesar de Henrique poder ter contemplado deixá-lo viver, tudo isso mudou quando foi revelado que João e Tomás Holland, João Beaufort, Eduardo de Norwich e Tomás le Despenser – todos rebaixados dos títulos que Ricardo havia lhes dado – estavam planejando matar o novo rei e restaurar Ricardo no Levante da Epifania. Mesmo tendo sido evitado, a conspiração destacou o perigo de deixar Ricardo viver. Acredita-se que ele morreu de fome no cativeiro por volta do dia 14 de fevereiro de 1400, apesar de ainda ser discutida a data e a circunstâncias de sua morte. Seu corpo foi levado de Pontefract e exibido na Antiga Catedral de São Paulo em 17 de fevereiro antes de ser enterrado na Igreja de Todos os Santos em Kings Langley, Hertfordshire, em 6 de março.

Persistiram os rumores que Ricardo ainda estava vivo, porém nunca ganharam muito crédito na Inglaterra. Entretanto na Escócia, um homem identificado como Ricardo foi parar nas mãos de Roberto Stuart, Duque de Albany, no Castelo de Stirling, servindo como uma figura fictícia e até mesmo relutante de várias intrigas anti-Lencastre e lollardas na Inglaterra. O governo de Henrique o considerou um impostor e várias fontes nos dois reinos sugerem que o homem sofria de alguma doença mental, um descrevendo-o como "pedinte" na época de sua morte em 1419, porém foi enterrado como rei no mosteiro dominicano de Stirling. Enquanto isso em 1413, Henrique V – em uma tentativa de reparar o ato de assassinato de seu pai e acabar com os rumores que Ricardo ainda estava vivo – decidiu retirar o corpo do rei de Kings Langley e levá-lo para seu local de descanso final na Abadia de Westminster. Lá o próprio Ricardo havia preparado uma tumba elaborada, onde o corpo de sua primeira esposa Ana da Boêmia fora enterrada.

Patrono das artes

Como parte do programa de Ricardo para afirmar sua autoridade, ele tentou cultivar uma imagem real. Diferentemente de qualquer outro rei inglês antes dele, foi o primeiro a ser retratado em pinturas que elevavam sua majestade, duas das quais sobrevivem: o retrato da Abadia de Westminster de c. 1390 e o Díptico de Wilton de c. 1394–99, um trabalho portátil feito provavelmente para acompanhar o rei em sua campanha na Irlanda. É um dos poucos exemplos sobreviventes do estilo gótico internacional de pintura que desenvolveu-se nas cortes do continente, especialmente em Praga e Paris. Seus gastos em joias, ricas tapeçarias e metalurgia foram muito mais altos que em pinturas, porém como suas iluminuras há pouquíssimos trabalhos restantes que podem ser conectados com Ricardo, exceto por uma coroa que provavelmente pertenceu a Ana da Boêmia, "uma das melhores realizações da ourivesaria gótica".


Westminster Hall no século XIX.

Um dos maiores projetos de Ricardo no campo da arquitetura foi o Westminster Hall, que foi extensivamente reconstruído durante seu reinado, talvez estimulado pela finalização em 1391 do magnífico salão de João de Gante no Castelo de Kenilworth. Quinze estátuas em tamanho real de reis foram colocados em nichos nas paredes, com o telhado hammerbeam do carpinteiro Hugh Herland, "a maior criação da arquitetura de madeira medieval", permitindo que os três corredores românicos originais fossem substituídos por um único espaço aberto grandioso com uma plataforma no final para Ricardo sentar-se em estado de solidão. A reconstrução havia começado em 1245 por Henrique III, porém havia ficado parada por meio século até a época de Ricardo.


João de Gante esteve no centro da política inglesa por mais de trinta anos, com sua morte em 1399 criando insegurança.

A patronagem da corte para a literatura é especialmente importante, pois foi nesse período que a língua inglesa tomou forma como um idioma literário. Há poucas evidências que Ricardo patrocinou diretamente a poesia, porém mesmo assim foi dentro de sua corte que permitiu-se que a cultura prosperasse. Geoffrey Chaucer, o maior poeta da época, serviu o rei como diplomata, funcionário da alfândega e escrituário d'As Obras do Rei enquanto produzia alguns de seus trabalhos mais conhecidos. Ele também serviu João de Gante e escreveu The Book of the Duchess como elegia a Branca de Lencastre, esposa de João. John Gower, amigo de Chaucer e colega, escreveu Confessio Amantis sob a comissão direta de Ricardo, apesar de posteriormente ter se desencantado com o rei.

Personalidade e avaliação

Escritores contemporâneos, mesmo aqueles que não gostavam de Ricardo, concordavam que ele era um "rei muito belo", apesar de possuir uma "face que era branca, circular e feminina", implicando falta de masculinidade. Era atlético e alto; quando sua tumba foi aberta em 1871, descobriu-se que tinha 1,82 m. Embora o retrato da Abadia de Westminster provavelmente ser similar a Ricardo, o Díptico de Wilton o representa significantemente mais novo que era na época; acredita-se que nessa altura ele tinha barba. Era ortodoxo religiosamente, e particularmente ao final de seu reinado tornou-se um grande oponente da heresia lollarda. Ricardo era particularmente devoto a figura de Eduardo, o Confessor, impalando em 1395 seu brasão com as armas míticas do Confessor. Mesmo não tendo sido um rei guerreiro como seu avô, ele mesmo assim gostava de torneios e de caçar.

A visão popular de Ricardo foi influenciada mais do que qualquer outra coisa pela peça teatral Ricardo II, de William Shakespeare. O Ricardo de Shakespeare era um rei cruel, vingativo e irresponsável, que conseguiu um semblante de grandeza apenas depois de sua queda. Entretanto, como estava escrevendo uma obra de ficção, Shakespeare tomou várias liberdades artísticas. Ele baseou sua peça em escritores como Eduardo Hall e Samuel Daniel, que por sua vez basearam seus trabalhos em crônicos contemporâneos como Tomás Walsingham. Hall e Daniel faziam parte da historiografia Tudor, que era altamente crítica a Ricardo. A ortodoxia Tudor, reforçada por Shakespeare, via uma contínua discórdia civil que começou com Ricardo e só terminou em 1485 com a ascensão de Henrique VII. Prevaleceu até o século XIX a ideia que ele era o culpado pela Guerra das Rosas no século XV.[ Historiadores mais recentes preferem olhar para a Guerra das Rosas isoladamente do reinado de Ricardo.


A primeira página da peça Ricardo II de William Shakespeare, impressa em 1623.

O estado mental de Ricardo foi uma grande questão de debate desde que os primeiros acadêmicos historiadores abordaram o assunto no século XIX. O bispo William Stubbs foi um dos primeiros historiadores modernos a tratar de Ricardo como rei e pessoa. Ele argumentava que a cabeça do rei "estava perdendo todo seu equilíbrio" ao final de seu reinado. O historiador Anthony Steel, que escreveu uma biografia completa de Ricardo em 1941, tomou uma abordagem psiquiátrica para a questão e concluiu que o rei sofria de esquizofrenia. Isso foi desafiado por Vivian Hunter Galbraith, que afirmava que não havia base histórica para tal diagnóstico, uma linha que foi seguida por historiadores posteriores do período como Anthony Goodman e Anthony Tuck. Nigel Saul escreveu a biografia acadêmica mais recente de Ricardo e admite que, apesar de não existirem bases para presumir que o rei sofria de uma doença mental, ele claramente mostrava sinais de uma personalidade nascisista, e ao final de seu reinado a "compreensão de Ricardo da realidade estava ficando menor".

Uma das principais perguntas histórias acerca do reinado de Ricardo diz respeito ao seu programa político e as razões para seu fracasso. Via-se seu estilo de reinado como contendo elementos de uma monarquia absoluta moderna como exemplificada pelos monarcas Tudor. Mais recentemente, alguns viram o conceito de reinado de Ricardo como não sendo tão diferente de seus predecessores, e por justamente permanecer dentro do âmbito da monarquia tradicional que ele conseguiu realizar aquilo que alcançou. Porém suas ações foram muito extremas e abruptas. Por exemplo, a falta de guerras tinha a intenção de reduzir o fardo dos impostos e assim ajudar a popularidade do rei entre os comuns no parlamento. Entretanto essa promessa nunca foi cumprida já que os custos do séquito real, da opulência da corte e da enorme patronagem de Ricardo para seus favoritos mostrou-se tão cara quanto a guerra, porém sem oferecer benefícios comensuráveis. Já sua política de retenção militar acabou sendo emulada por Eduardo IV e Henrique VII, porém a dependência exclusiva de Ricardo no condado de Cheshire danificou seu apoio no resto do país. Como Simon Walker concluiu: "Em termos contemporâneos, aquilo que ele queria não era injustificável nem inatingível; foi a maneira de sua busca que o traiu".

Fonte: Wikipédia


Tags: Rei da Inglaterra, Ricardo II






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