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07 de outubro de 1934.

A Frente Única Antifascista se posiciona contra a "marcha dos cinco mil" organizada pela Ação Integralista Brasileira, resultando em um conflito armado que ficou conhecido como Revoada dos galinhas-verdes.

Plinio Salgado, líder do Integralismo

Revoada dos galinhas-verdes foi o nome pelo qual ficou conhecido o confronto armado ocorrido na Praça da Sé, em São Paulo, em 7 de outubro de 1934. O episódio é também referido como Batalha da Praça da Sé.

Antecedentes

A Ação Integralista Brasileira (AIB) havia marcado a marcha como uma celebração pelo segundo aniversário do Manifesto Integralista. Levou 5 mil a 10 mil seguidores, conforme cálculos de fontes diversas, à Praça da Sé e arredores. Seus oponentes, que interpretaram a iniciativa como uma demonstração de força inspirada na Marcha sobre Roma - manifestação fascista ocorrida em 28 de outubro de 1922, que impulsionou Mussolini ao poder - mobilizaram-se para impedi-la. Mario Pedrosa, militante trotskista, explicaria, anos depois, a percepção da esquerda sobre a celebração integralista:

"Toda a esquerda se uniu contra a manifestação integralista que seria realizada naquele dia. O objetivo dos integralistas era atacar a organização da classe operária, a sede da Federação Sindical de São Paulo e os sindicatos que tinham sede no edifício Santa Helena, na frente do qual haviam planejado o desfile. Nós lutamos contra os fascistas e impedimos a realização da manifestação".

O confronto ocorreu quando anarquistas, comunistas, sindicalistas e trotsquistas, organizados na Frente Única Antifascista, posicionaram-se contra a realização de uma marcha organizada pela (AIB), organização que congregava correntes nacionalistas e fascistas, dirigida por Plínio Salgado.


Membros da Ação Integralista Brasileira (AIB), e sua tradicional saudação anauê.

Durante o episódio 30 pessoas ficaram gravemente feridas e morreram pelo menos seis pessoas - três guardas civis, dois operários integralistas e um militante da juventude comunista, Décio Pinto de Oliveira, estudante da Faculdade de Direito de São Paulo. Décio foi alvejado na cabeça quando discursava e passou a ser o símbolo do movimento antifascista brasileiro daqueles anos. Também ferido foi no confronto o jornalista Mário Pedrosa, enquanto ajudava um outro militante comunista também atingido.

A denominação "Revoada dos galinhas-verdes" se deve ao desfecho do incidente, com a debandada dos integralistas, que, enquanto corriam, deixavam pelo chão suas camisas verdes, principal elemento de identificação dos militantes da AIB. Uma testemunha da época assim descreveu a cena: "Despiam as camisas mesmo correndo. Naquela capital do inferno em que se transformara a Praça da Sé, desabusada e corajosamente, rindo, um antifascista, Vitalino, carroceiro, dono de um ferro-velho, divertia-se, ajudando-os a despi-las. Tempos depois, vangloriava-se de possuir, como recordação, em sua casa, mais de uma dúzia delas, guardadas como troféus de um momento histórico". Diante desta fuga desorganizada, o humorista comunista Barão de Itararé ironizou: "Um integralista não corre, voa".

Testemunhos

Lélia Abramo, atriz e militante comunista que participou de momentos importantes da vida política do Brasil como a fundação do PT e as lutas das Diretas Já!, relata a sua versão do acontecimento em suas memórias:

'Enfrentamos, com armas nas mãos ou sem elas, a organização fascista integralista, comandada por Plínio Salgado. Os integralistas estavam todos fardados, bem armados, enquadrados e prontos para uma demonstração de força, protegidos pelas instituições político-militares getulistas e dispostos a tomar o poder. Nós, espalhados ao longo da praça e nas ruas adjacentes, esperamos pacientemente que desfilassem primeiro as crianças, também fardadas, e as mulheres integralistas. Depois disso, quando os asseclas de Plínio iniciaram seu desfile, nós todos avançamos e começou a luta aberta.'

Miguel Reale professor doutor em direito, jurista e escritor brasileiro, autor da Teoria Tridimensional do Direito, um dos responsáveis pela elaboração do Código Civil Brasileiro de 2002, que na sua juventude participou da Ação Integralista Brasileira escreveu, em um artigo, no ano de 2004, outra versão sobre o acontecimento.

“Infelizmente, quando se trata de um movimento político da chamada direita, há tendência no sentido de denegri-la, enquanto que à esquerda tudo se perdoa, esquecendo-se os genocídios perpetrados por Stalin, e os atos violentos dos brasileiros que, sob a bandeira comunista de Luis Carlos Prestes, tentaram ganhar o poder, como o fizeram em 1934, na praça da Sé, quando, do alto do antigo Edifício Santa Helena fuzilaram a milícia integralista que, desarmada, vestia pela primeira vez a camisa verde, com a morte de dois operários. Sobre esses homicídios nem sequer foi instaurado inquérito policial”.

Goffredo da Silva Telles Júnior, professor de Direito do Largo São Francisco, um dos autores da Carta aos Brasileiros (1977), contra o regime militar, e que em sua juventude participou da Ação Integralista Brasileira, dá outra versão sobre o acontecido, numa entrevista concedida em 1990 a Eugênio Bucci, na Revista Teoria e Debate:

'Não houve enfrentamento nenhum. O que houve foi uma repressão policial a uma manifestação de operários e estudantes. Foi uma tristeza. Operários morreram. Uma bala da polícia atingiu Mário Pedrosa (…) Assisti a tudo. Eu era um estudante da Faculdade de Direito. Tinha dezenove anos de idade nessa ocasião (…) A manifestação era de operários e estudantes. Naquele tempo, ninguém andava armado(…)'

A versão dos antifascistas

Os antifascistas, sabendo do comício integralista, marcaram uma contramanifestação para o mesmo dia e local. Grupos antifascistas se distribuíram nas imediações da Praça da Sé. Os principais pontos eram a Praça Doutor João Mendes, o pátio do convento do Carmo, no início da Avenida Rangel Pestana, o largo de São Bento e a Praça Ramos de Azevedo. Os camisas-verdes deviam ser mais de "três ou quatro mil", e era grande o contingente de integralistas que desembarcavam de trens vindos de cidades do interior paulista, como Bauru, Jaú, Sorocaba, Campinas e Santos.

A Praça da Sé contava com 400 homens dos bombeiros e da cavalaria da polícia. Havia também a guarda civil armada. Logo as ruas que davam acesso à Praça da Sé estavam policiadas. Os integralistas iniciaram sua manifestação com uma passeata de mulheres e crianças uniformizadas, portando bandeiras com o sigma. Dirigem-se às escadas da Catedral da Sé, onde já se encontravam outros integralistas. São recebidas com gritos e vaias pelos antifascistas, que já estavam a postos na praça. (…) Alguns integralistas buscaram reagir, e há um princípio de tumulto, com uma troca de tapas e safanões. Seguem-se tiros, sem que ninguém soubesse de onde vinham. Uma rajada de tiros é disparada, acertando em cheio três guardas civis.

Cerca de dez minutos depois, o grosso das formações integralistas entra na praça ao som de seu hino oficial, dando "anauês" (saudação integralista), e começando a lotar as escadarias da Catedral. Inicia-se então a contramanifestação, com breve discurso: "Companheiros antifascistas, viemos a praça para não permitir que o fascismo tome conte da rua e dos nossos destinos… " Logo começa um intenso tiroteio vindo de todos os lados. Fascistas e antifascistas trocam tiros. Muitos integralistas se retiram da praça. Um último grupo continua a lutar contra os antifascistas, mas logo se retira. Muitos integralistas deixam a praça, correndo em todas as direções. Nos dias seguintes, são recolhidas as camisas verdes abandonadas. Durante a troca de tiros, dezenas de pessoas, de ambos os lados, foram mortas ou feridas.

Um dos líderes do movimento foi o histórico militante anarquista Edgard Leuenroth, que protestava em meio ao tiroteio. Nas palavras de Eduardo Maffei, "nesse momento estavam de mãos dadas, trabalhadores, intelectuais e estudantes, stalinistas, anarquistas e trotskistas".

Outro participante da manifestação foi o militante libertário Jaime Cubero, que assim descreve sua visão do enfrentamento:

Quando os fascistas chegaram, todos de camisas-verdes (na Itália eram os camisas-negras), começaram a se concentrar, esperando 500 mil pessoas que não chegaram a tantas, colocando na frente da marcha mulheres e crianças, por pensarem que ninguém dispararia contra mulheres e crianças. Os anarquistas esperaram que as mulheres e crianças passassem e depois … tendo um dos companheiros - Simão Rodovich - percebido que havia metralhadoras prontas a disparar sobre os operários, ele toma conta de uma delas e começa então um tiroteio enorme. Morreram seis pessoas, muitas delas ficaram feridas, algumas morrendo depois, devido aos ferimentos, mas o que é de salientar é que houve uma debandada enorme, a passeata dos fascistas abortou. Isto para demonstrar que o movimento anarquista não morreu, a manifestação de 1934 demonstra que ele estava bem vivo".

Cubero também descreve sua visão da composição da manifestação:

Havia uma revista do Partido Comunista da época, Divulgação Marxista, que era suspeita quando dava dados. O Partido Comunista não chegava na altura a ter 1.000 filiados no partido, contudo chegaram quase a dizer que tinham sido eles a enfrentar os integralistas. Irônico não é? Em contrapartida, a Federação Operária de São Paulo (organização eminentemente anarcossindicalista) tinha mais de 80 sindicatos que não pertenciam ao Estado.

Sobre o enfrentamento armado, Augusto Buonicore conta que:

Um grupo de choque integralista, com apoio da polícia, sustentou cerca de quatro horas de pesado tiroteio. Entre os militantes que resistiam de armas nas mãos as jovens Lélia Abramo trotskista e a militante comunista Luisa Marcelino Branco. Entretanto a própria Lélia, em suas memórias, afirma não ter portado armas naquele ato .

Fonte: Wikipédia


Tags: Revoada dos galinhas-verdes, AIB, Integralismo, Plínio Salgado, fascismo, Batalha da Praça da Sé






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