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Sexta-Feira, 08 de Maio de 1990.

Morre o compositor italiano, Luigi Nono

Luigi Nono

Em 8 de maio de 1990 falecia em Veneza um dos principais músicos da segunda metade do século 20. Afastando-o da "italianidade" juvenil, os caminhos de Nono o levaram sempre à Alemanha, também em termos estéticos.

Luigi Nono nasceu em 29 de janeiro de 1924, no seio de uma aristocrática família de artistas de Veneza. O primeiro nome foi herdado do avô, um dos mais importantes pintores da escola veneziana do século 19. O pai, Mario Nono, era engenheiro civil.

Após formar-se em Direito, o jovem Luigi passou a dedicar-se com intensidade crescente à música. Seu professor de regência foi o legendário maestro berlinense Hermann Scherchen, que o jovem italiano conheceu em 1948 e que seguiu até Zurique e Rapallo. Entre 1950 e 1960, frequentou os Cursos de Férias de Darmstadt, onde estreou sete peças de sua autoria.

Em 1955 desposou Nuria, filha do compositor Arnold Schoenberg (1874-1951), o criador da revolucionária técnica dodecafônica (baseada numa sequência de notas pré-fixada – a "série" – e suas variações combinatórias). Nono conhecera a jovem no ano anterior em Hamburgo, por ocasião da estreia mundial da ópera inacabada de Schoenberg, Moses und Aron.


Nono (e) em Darmstadt, 1951, ao lado de Karel Goeyvaerts e Karlheinz Stockhausen

Madrigais e espacialização

A italianidade de Luigi Nono esteve mais presente em sua primeira fase criativa, influenciado pelos compatriotas Gianfrancesco Malipiero, Luigi Dallapiccola e Bruno Maderna. A exuberante tradição musical de sua terra é audível na sensualidade sonora, numa escrita vocal dramática, de traços por vezes verdianos. A convivência com Maderna (1920-1973) também intensificara seu interesse pela polifonia renascentista.

A eterna obsessão do veneziano pela distribuição espacial dos sons – reforçada pela experiência eletroacústica – tem sido vista como uma evolução da prática policoral de Veneza. Essa escola – que tem Andrea e Giovanni Gabrieli, entre os principais representantes – explorava, já no século 16, a caprichosa acústica da Catedral de São Marcos, distribuindo cori spezzati (coros divididos) em formações estereofônicas, quadrofônicas, e mais além.

Num simpósio dedicado a Nono, seu discípulo Helmut Lachenmann definiu Prometeo – aliás concebida originalmente para a mesma Catedral de São Marcos – como "um gigantesco madrigal".

O eterno retorno à Alemanha

Por outro lado, o interesse de Nono pela cultura e os sons germânicos manifestou-se desde logo. Mais de uma vez, ele declarou seu fascínio por certos aspectos sonoros das obras de Richard Wagner (os sons estáticos no Prelúdio de O ouro do Reno) e Gustav Mahler (o acorde inicial da Sinfonia nº 1).

Significativamente, sua primeira composição apresentada em público foi um ciclo de variações canônicas sobre a série dodecafônica utilizada por Schoenberg em seu opus 41. A ligação com a cultura germânica fica também óbvia em títulos como Das atmende Klarsein, Für Paul Dessau, Ricorda cosa ti hanno fatto in Auschwitz, ou na utilização de textos de Hölderlin, Nietzsche, Rilke e da austríaca Ingeborg Bachmann em suas obras.

As estações da carreira de Nono o levaram repetidamente à Alemanha. Entre seus colaboradores estiveram Jürgen Flimm (concepção cênica de Prometeo) e os dramaturgos Peter Weiss e Heiner Müller. Este último dedicou-lhe em 1985 Bruchstück für Luigi Nono. As mais importantes peças eletroacústicas do veneziano foram realizadas no Experimentalstudio da Rádio SWR, em Freiburg. A estreia mundial da histórica Il canto sospeso (1956) realizou-se em Colônia.


Arnold Schoenberg

Beethoven e Prometeu

Em 1966 Nono tornou-se membro da Academia das Artes de Berlim Oriental e, em 1988, do Colégio das Ciências de Berlim. Pouco antes residira na atual capital alemã, a convite do Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico (DAAD). Em 1990, ano de seu falecimento, o músico recebeu o Berliner Kunstpreis.

Nas obras de maturidade, Nono despediu-se de vez da eloquência italiana, do fascínio pelas palavras, da gestualidade típica do compatriota Luciano Berio (1925-2003): o ideal de Nono era uma música que fosse apenas som, ondas sonoras. Esta rarefação extrema tem sido comparada aos aspectos ditos "transcendentais" da última fase criativa de Ludwig van Beethoven.

Os paralelos não terminam aí: ambos os compositores eram idealistas, acreditavam na irmandade entre os homens. Não por acaso, tanto Beethoven (Criaturas de Prometeu, Sinfonia Eroica) quanto Nono se ocuparam intensamente do mito grego de Prometeu, o titã punido por levar o fogo e o progresso à humanidade.

Luigi Nono faleceu em Veneza em 8 de maio de 1990, aos 67 anos de idade. Geralmente envolvida em respeitosa reticência, a causa de sua morte foi, ao que tudo indica, o longo e excessivo consumo de álcool.

Fonte: Deutsche Welle


Tags: Música, compositor, Luigi Nono






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