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Quinta-Feira, 07 de Janeiro de 1536.

Morre Catarina de Aragão, primeira mulher de Henrique VIII da Inglaterra

Catarina de ragão, Rainha Consorte da Inglaterra

Catarina de Aragão (em espanhol: Catalina de Aragón; Alcalá de Henares, 16 de dezembro de 1485 — Castelo de Kimbolton, Cambridgeshire, 7 de janeiro de 1536) foi Princesa de Espanha e a primeira rainha consorte de Henrique VIII da Inglaterra, sendo mãe da rainha Maria I (Mary I). Conversava tanto em seu espanhol nativo, quanto em latim, grego, francês e, mais tarde, inglês. Quando rainha, o seu tempo foi maioritariamente empenhado em obras de caridade, o que lhe conferiu o amor do povo inglês.

Sua união com Henrique foi incapaz de produzir um herdeiro masculino para o trono. Ele entrou com um pedido de anulação do casamento, alegando que ela teria consumado o anterior, com seu irmão mais velho, falecido pouco depois de desposar Catarina, Artur, Príncipe de Gales. Uma série de eventos seguiu esse pedido, levando ao rompimento da coroa inglesa com a Igreja Católica Romana após o papa negá-lo. O rei, assumindo a supremacia religiosa no país, conseguiu a anulação e casou-se com sua amante Ana Bolena. Catarina, todavia, nunca aceitou a decisão, e continuou considerando-se sua legítima esposa e Rainha da Inglaterra.

Casamento com Artur e viuvez

Quando se conheceram, ela e Artur descobriram que não conseguiam se entender, pois havia aprendido pronunciações diferentes do latim. Casaram-se em novembro de 1501, na Antiga Catedral de São Paulo, com uma grande cerimônia oferecida pelo pai do noivo. O casal foi viver no País de Gales, onde Artur tinha deveres a cumprir. Alguns meses depois, ambos ficaram doentes, provavelmente da doença do suor que assolava a região. Em abril de 1502, Artur morreu e Catarina recuperou-se como uma viúva aos dezesseis anos.


Catarina de Aragão, já como uma jovem viúva, em 1502.

Henrique VII não queria devolver a primeira parte do seu dote, nem seus pais queriam que ela voltasse para a Espanha sem os direitos de viuvez, o que o rei não concedia por não ter recebido a segunda parte do dote. Surgiu então a possibilidade de tornar-se noiva do novo Príncipe de Gales, seu antigo cunhado Henrique, cinco anos mais jovem que ela. A morte de sua mãe, Isabel de Castela, durante as negociações, todavia, diminuiu o valor de Catarina para o matrimônio aos olhos do rei inglês, pois Castela era um reino muito maior que Aragão, e foi herdado pela filha mais velha do casal, a mentalmente instável Joana I de Castela. O casamento foi, então, ostensivamente adiado até que Henrique estivesse com idade suficiente, mas o rei procrastinou tanto que era uma dúvida se realmente aconteceria. A situação de Catarina ficou difícil, pois passou a viver como uma potencial prisioneira, e com pouco dinheiro para manter a si própria e a suas damas de companhia, sendo obrigada a vender parte de seus bens.

Em 1507, serviu como embaixadora espanhola na Inglaterra, quando seu pai viu-se sem um, o que fez dela a primeira mulher embaixadora da Europa. A jovem afirmou que o casamento com Artur não havia sido consumado devido a pouca idade de ambos, e uma dispensa papal foi requisitada, porque o direito canônico dizia que um homem não poderia casar com a mulher de seu irmão. O Papa Júlio II a concedeu em 1505.

Rainha da Inglaterra

Casamento e coroação

Após um ano da morte de Artur, a rainha Isabel de Iorque morreu no parto de um bebê natimorto, aos 37 anos. Em abril de 1509, o próprio rei Henrique VII faleceu, tornando seu filho o novo rei da Inglaterra, Henrique VIII. Ele decidiu que se casaria com Catarina rapidamente. A cerimônia privada aconteceu em junho de 1509, seis anos depois da morte de Artur; Catarina estava com 23 anos, e Henrique próximo dos 18.

Os dois fizeram a tradicional procissão para Westminster no dia 23 de junho de 1509, seguida por uma população entusiasmada, depois de passarem a noite na Torre de Londres, como de costume. No dia seguinte, foram ungidos e coroados juntos pelo Arcebispo da Cantuária na Abadia de Westminster. No mês que se seguiu, seriam organizadas várias ocasiões sociais para que a nova rainha fosse apresentada ao povo inglês, que a recebeu bem.


Uma xilogravura do século XVI, retratando a coroação de Henrique e Catarina.

Filhos e regência

O primeiro parto da rainha foi de uma menina natimorta, em 31 de janeiro de 1510. Ela voltou a engravidar logo, e no mesmo mês do ano seguinte, a 1º de janeiro de 1511 nascia seu filho, Henrique, Duque da Cornualha e Príncipe de Gales. O bebê, no entanto, viveu apenas 52 dias falecendo a 23 de fevereiro de 1511. Em 1513, Catarina engravidou outra vez, pouco antes de Henrique partir para a França com seu exército. Ela foi deixada como rainha regente.

Aproveitando a ausência do rei, os escoceses invadiram o território inglês, mas foram derrotados, resultando inclusive na morte do rei da Escócia, Jaime IV, entre outras figuras importantes do país. Apesar de ser uma história difundida, não há comprovação de que Catarina tenha feito um discurso para incentivar as tropas inglesas à batalha. O resultado dessa gravidez também não foi satisfatório: um menino natimorto, ou falecido pouco depois de nascer.

O rei retornou e, em 1514, a rainha voltou a dar à luz um menino, príncipe Henrique, mas ele também acabou morrendo pouco tempo depois de nascer. Em 18 de fevereiro de 1516, Catarina teve um bebê saudável, uma menina, chamada Maria. Seu pai, Fernando de Aragão, tinha morrido pouco tempo antes, mas a notícia não foi dada a ela enquanto carregava o bebê. Dois anos depois, ficou grávida uma última vez, novamente uma menina, mas que não chegou a viver mais de uma semana. No total, ela engravidou seis vezes, embora apenas uma das crianças tenha chegado à idade adulta.

O pedido de anulação

A dedicação religiosa de Catarina aumentava enquanto ela envelhecia, assim como seu interesse pelos estudos acadêmicos. Ela constantemente melhorava seus conhecimentos e ensinava sua filha Maria. A educação feminina tornou-se elegante, parcialmente por sua influência. Ela também doou uma grande quantidade de dinheiro para universidades. Henrique, no entanto, ainda considerava um herdeiro masculino essencial. A dinastia Tudor ainda era recente, e sua estabilidade não havia sido testada. Além disso, uma longa guerra civil, conhecida como A Anarquia (1135–54) havia acontecido da última vez que uma mulher, Matilde de Inglaterra, tentara assumir o trono, e a memória da Guerra das Rosas estava presente na memória coletiva.

Em 1525, Henrique começou a se interessar por Ana Bolena, dama de companhia da rainha, oito anos mais nova do que ele. Ele passou a cortejá-la; já não era mais possível para Catarina ter filhos.

Henrique considerava que seu casamento podia ter sido amaldiçoado. Consultou a Bíblia, em Levítico, e a interpretou como dizendo que se um homem desposasse a mulher de seu irmão, o casal ficaria sem filhos. Mesmo se o casamento não tivesse sido consumado (no que Catarina insistiu até o dia de sua morte), a interpretação dele afirmava que teria sido errado aos olhos de Deus, portanto nem mesmo o papa poderia oferecer uma concessão. É possível que a ideia de uma anulação tenha sido sugerida para Henrique muito antes, e muito provável que ele seria mais motivado pelo desejo de ter um filho e evitar problemas na sucessão.

Rapidamente, conseguir a anulação de seu casamento com Catarina tornou-se uma prioridade para ele. William Knight, secretário do rei, foi enviado para solicitar a anulação ao Papa Clemente VII. Nessa época, o papa era prisioneiro do sobrinho de Catarina, o Imperador Carlos I, depois do Saque de Roma em maio de 1527. Foi difícil para William ter acesso a ele, e retornou sem sucesso. Henrique, então, colocou a questão nas mãos do Cardeal Tomás Wolsey. O cardeal realizou um julgamento para investigar se o casamento seria válido ou não; o bispo de Rochester John Fisher, posicionou-se firmemente ao lado de Catarina. Ela foi irredutível quando lhe foi sugerido que se retirasse discretamente para virar uma freira, dizendo, "Deus nunca me chamou para um convento. Sou a verdadeira e legítima esposa do rei". Escreveu então para seu sobrinho Carlos, pedindo que tentasse influenciar o papa a tomar uma decisão contra a vontade do marido.

Wolsey realizou um tribunal eclesiástico na Inglaterra, com a presença de um representante do papa, de Henrique e da própria Catarina. O papa, porém, não permitiria que a decisão fosse tomada na Inglaterra, e chamou seu representante de volta a Roma. É difícil dizer até onde teria sido influenciado pelo imperador, mas Henrique claramente percebeu que era improvável obter a anulação de seu casamento com a tia deste através do papa, que o proibiu de voltar a se casar antes de tomar uma decisão sobre o assunto. Wolsey havia falhado, e foi afastado da corte em 1529. Ele começou então a tramar para que Ana fosse forçada ao exílio e a se comunicar escondido com o papa; quando Henrique descobriu, ordenou sua prisão. Se não tivesse adquirido uma doença grave e morrido, poderia ter sido executado por traição.


Catarina fazendo sua defesa contra a anulação, por Henry Nelson O'Neil.

Catarina era mais amada pelo povo inglês do que Ana, que era vista como uma usurpadora. Além de Fisher, alguns de seus defensores eram Thomas More, a irmã de Henrique, Maria Tudor, o líder protestante Martinho Lutero, e William Tyndale.

Afastamento

Em 1531, um tribunal eclesiástico declarou Henrique o chefe supremo da Igreja na Inglaterra, o que efetivamente acabava com a autoridade papal não apenas na questão da validade do casamento, mas em todas as outras questões religiosas do país. Em julho desse mesmo ano, Catarina foi expulsa da corte, e seus antigos aposentos foram dados para Ana. Quando o Arcebispo da Cantuária William Warham morreu, sua posição foi entregue a Tomás Cranmer, capelão da família Bolena. Catarina passou a viver praticamente isolada em Ludlow, e foi afastada de sua filha Maria, a quem nunca mais voltou a ver. Henrique casou-se secretamente com Ana Bolena. Acredita-se que Ana, cuja irmã Maria havia sido amante de Henrique, teria se recusado a deitar-se com ele antes do casamento. Tomás Cranmer efetuou a anulação em maio de 1533; cinco dias depois, o casamento dele com Ana foi considerado válido. Em março de 1534, o papa negou o pedido de anulação, mas a decisão foi ignorada por Henrique, que não mais o reconhecia.

A morada de Catarina foi mudada repetidas vezes, ficando mais humilde, por ordens de Henrique. Ela continuou a se considerar e usar o título de rainha, como ainda era chamada pelos seus servos. Henrique, todavia, a considerava apenas "Princesa Viúva de Gales", em reconhecimento a sua posição como viúva de Artur. Era-lhe permitido receber visitas apenas ocasionais; algumas delas, discretamente, trocavam cartas entre ela e sua filha, que estavam proibidas de se comunicar de qualquer maneira. O rei lhes ofereceu a chance de terem melhores alojamentos e permissão para terem contato uma com a outra, se aceitassem Ana como a rainha legítima. Ambas recusaram.

Morte

Em dezembro de 1535, sentindo que a morte se aproximava, ela escreveu seu testamento, e uma carta para o sobrinho, imperador Carlos I, pedindo que protegesse sua filha Maria. Escreveu também uma última carta a Henrique, na qual o chama de "meu querido senhor, rei e marido", pede que "seja um bom pai para ela [Maria]" e diz que "lhe perdoa por tudo", e "ora a Deus para que o perdoe também". A carta foi assinada como "Catarina, a rainha".

Ela morreu em 7 de janeiro de 1536, no Castelo de Kimbolton. A notícia de sua morte chegou ao rei no dia seguinte. Na época, foram espalhados rumores de que ela teria sido envenenada, possivelmente pelo diplomata Gregory di Casale. Isso ocorreu pois ao examinarem o corpo de Catarina depois de falecida, os médicos encontraram uma mancha preta em seu coração; os apoiadores viram isso como prova de que teria sido assassinada a mando de Henrique e/ou Ana. Atualmente, no entanto, acredita-se que ela teria morrido de câncer, doença que não era bem entendida na época. Catarina foi enterrada na Abadia de Peterborough, com as cerimônias de uma Princesa de Gales, não de uma rainha. Henrique não compareceu ao funeral, nem permitiu que Maria o fizesse.

Influência e legado

O controverso livro The Education of Christian Women, de Juan Luis Vives, que afirmava que as mulheres tinham direito à educação, foi dedicado e autorizado por Catarina. A impressão que causava nas pessoas era tanta, que até seu inimigo Thomas Cromwell disse que "Se não fosse por seu sexo, ela poderia ter desafiado todos os heróis da História". Ela conquistou grande admiração por iniciar um extenso programa de ajuda aos pobres. Foi também uma patrona do humanismo renascentista, e amiga dos estudiosos Erasmo de Roterdã e Thomas More. Alguns a viam como mártir.

No reinado de sua filha Maria I da Inglaterra, o casamento com Henrique VIII foi declarado "correto e válido". A rainha Maria também encomendou muitos retratos de sua mãe. Um dos momentos mais retratados foi seu discurso no julgamento para decidir se seu casamento seria válido ou não, organizado por Tomás Wolsey; esse momento também foi descrito por William Shakespeare, na peça Henry VIII.


Sua tumba, como é vista depois da modificação no século XX.

A tumba de Catarina na Abadia de Peterborough foi modificada séculos depois, por ordem de Maria de Teck, rainha consorte de Jorge V, para que dissesse "Katharine Queen of England".

Todos os anos, é realizada uma cerimônia em sua homenagem. São feitas procissões e orações, e são colocadas velas, flores e romãs em seu túmulo. No dia do 470º aniversário de sua morte, o embaixador espanhol no Reino Unido compareceu. Há uma estátua dela em seu local de nascimento, Alcalá de Henares, que mostra uma jovem segurando um livro e uma rosa.


Estátua de Catarina em Alcalá de Henares.

Fonte: Wikipédia


Tags: Esposa, Henrique VIII, rainha, Ana Bolena, Catarina de Aragão, Rainha da Inglaterra






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